‘‘Quando a droga entra pela porta, a paz sai pela janela!’’ É bem certo este ditado popular, consagrado pela sabedoria de quem, no mínimo, já experimentou de perto o drama da dependência de qualquer droga. A CNBB nos desafia, este ano, com mais um tema dramático e pertinente na costumeira Campanha da Fraternidade, que tem lugar em todas as quaresmas, desde 1964.
A CPI do Narcotráfico, que terminou há poucos meses atrás, desvendou o que todos nós já sabíamos: a droga corre solta neste País e envolve desde altas esferas até o mirim que vende inocentemente o ‘‘produto’’ nas favelas... E mais, quem deveria zelar pela erradicação de tão nefasta influência, acaba inexoravelmente envolvido por ela!
Os bispos do Brasil não foram ‘‘arrastados’’ pela CPI do Congresso; eles já haviam escolhido o tema anteriormente. De fato, nada mais oportuno que aproveitar um tempo especial de preparação para a Páscoa para abordar uma questão que aprisiona mortalmente com suas cadeias e cria um mundo de sofrimento incompatível com o projeto do Senhor Ressuscitado.
O que a Igreja tem a dizer sobre drogas? Muitos se perguntam sobre a ‘‘legitimidade’’ da Igreja em abordar esta questão que teoricamente escapa ao seu mister. Em primeiro lugar, existem razões intrínsecas à sua missão, que remontam ao simples fato de que Igreja não é uma mera figura jurídica canônica. Ela é constituída de gente, de homens e mulheres, mergulhados num contexto histórico e existencial determinado.
Os que por algum motivo entraram nos caminhos sem volta da dependência das drogas são parte integrante do rebanho e portanto merecedores de uma atenção especial e carinhosa. Assim como Jesus em suas andanças por este mundo privilegiava os vitimados pelas mais diversas doenças, os organismos eclesiais não podem jamais se omitir perante a tragédia que envolve as drogas.
Mas tem outra razão. Em seu seio, local ou nacionalmente, a Igreja dispõe de pastorais específicas que acolhem e ajudam no processo de cura dessa doença chamada dependência! Tratar a árvore podando apenas as pontas não é o melhor método, e a CNBB sabe disso. Faz-se necessário ir mais fundo.
É imprescindível que a sociedade em geral e as comunidades em particular enfrentem o tema em discussão, de uma forma madura e responsável. Acolher aqueles que têm coragem de empreender uma recuperação é o mínimo, embora já demonstre uma nobreza relevante, mas enquanto houver um desinteresse legal, refletido numa Justiça morosa ou na impunidade dos traficantes, jamais poderemos dormir tranquilos.
Todos os que trabalham dentro da Igreja em movimentos ou pastorais específicas com os dependentes das drogas têm o direito de fomentar um debate profundo sobre a questão. Portanto é legítimo que a Igreja enfrente sem medo o mundo que gera morte e tragédias sem fim.
O percurso da droga seria muito simples se se limitasse a refazer a viagem de um país da América do sul até a Europa ou EUA. O preocupante é que ela sai de um desejo ávido de enriquecimento fácil e ganancioso, atravessa um vazio axiológico típico de nossa sociedade, voa numa angustiante vontade de prazer imediato e desembarca na terrível sensação de impotência a que todos nós estamos sujeitos perante o drama.
Em não poucos casos, a droga leva de carona muitos jovens e adolescentes numa fúnebre viagem sem volta! Ao longo dessa viagem, os paradoxos de uma humanidade voltada para determinados valores efêmeros, estimula com sua hipocrisia o fluxo dos passageiros, dizendo-lhes que a droga é proibida, mas alimentando as causas que a ela conduzem.
A Campanha da Fraternidade apela a um grande abraço de solidariedade entre todos os que não toleram a destruição do homem pelas drogas. Crentes ou não, todos os homens de boa vontade devem estar do mesmo lado, denunciando as estruturas que motivam o consumo de drogas, impetrando uma guerra sem tréguas a todos que ao abrigo de um enriquecimento fácil trepidam sobre a vida de inocentes viciados.
É intolerável numa sociedade democrática e moderna que as forças de segurança e repressão não estejam totalmente do lado ‘‘certo’’. Como é também intolerável que um governo não valorize os agentes policiais, facultando-lhes meios técnicos e soldos coerentes e compatíveis com o risco de sua profissão. Homenageamos todos os agentes de segurança que deram a vida numa luta desigual contra o tráfico de drogas. E não são poucos no Brasil.
- PADRE MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é assessor de Comunicação da Arquidiocese de Londrina

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