Vida moderna - Em busca da leveza perdida
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de setembro de 2014
Lúcio Flávio Moura<br> Reportagem Local 
Jornalista consagrada em Minas Gerais, a palestrante Leila Ferreira usou suas reflexões sobre a vida para duas coisas. A mais importante delas foi a definição de uma meta: viver com mais leveza, simplicidade e equilíbrio. A outra foi escrever uma de suas obras mais conhecidas, A Arte de Ser Leve (Editora Globo, 278 páginas), que inspira sua concorrida agenda de palestras.
Leila que já trabalha na divulgação de sua obra mais recente, a coletânea de crônicas Viver não Dói (Editora Globo, 208 páginas), estará em Londrina esta semana para um evento promovido para diretores de unidades do Sistema Maxi de Ensino.
Com a experiência de ter comandado mais de 1,6 mil entrevistas em uma década à frente do Leila Entrevista, a ex-colaboradora da revista Marie Claire e do jornal O Estado de Minas topou ficar do outro lado e conceder a seguinte entrevista exclusiva à FOLHA.
Quais são as principais barreiras para se alcançar uma vida mais leve e mais equilibrada?
Quase tudo no mundo atual conspira contra estas duas buscas. Vivemos numa cultura que estimula a aceleração, a competitividade, o individualismo e o materialismo. De certa forma, isso é incompatível com a leveza e o equilíbrio. Os valores que têm sido adotados e enaltecidos pela sociedade contemporânea dificultam a conquista da qualidade de vida.
Por que é importante desacelerar?
A vida acelerada se tornou um vício dos nossos tempos. Há uma liberação de hormônios que produz uma sensação que vicia, ou seja, uma doença. É uma situação absurda. Nos Estados Unidos, por exemplo, já existe velório drive-thru: você olha o morto através do vidro, assina o livro de presença e vai embora. Consome apenas dois ou três minutos. Em Tóquio, um dos restaurantes que mais fazem sucesso cobra o cliente por minuto. Quanto mais depressa você come, menos você paga. Esta pressa toda tem criado o fim das pausas. Sem pausas, não há qualidade de vida. Sem a pausa não há o descanso, não há reflexão, não há o autoconhecimento. Sem autoconhecimento, vive-se uma vida feita de equívocos. Este vício tem nos deixado, na melhor das hipóteses, tristes e, na pior, doentes.
O que é descomplicar a vida?
Descomplicar é fundamental porque a vida por si só já é complicada. Viver não é fácil. A condição humana é precária. O exercício de viver já é árduo o bastante. Mas temos tornado este exercício mais difícil porque estamos comprando mais do que precisamos, correndo mais do necessitamos, nos exibindo mais do que aconselha o nosso bom senso, competindo mais do que seria sensato. A gente tem carregado uma bagagem gigantesca de problemas, de complicações, de desgastes, temos atravessado este planeta com um peso que mal cabe em uma carreta. Estamos com almas obesas. Quanto mais simplicidade conseguirmos incorporar ao cotidiano, mais chances temos de viver bem.
Esta grande carga de compromissos é realmente evitável?
Hoje, de fato, a gente vive o problema da limitação do tempo. A vida hoje nos obriga a gastar mais tempo. Há várias ciladas neste sentido. Mas há outras ciladas que criamos para nós próprios. Não estamos, por exemplo, conseguindo dosar o uso da tecnologia. Quase que inevitavelmente estamos conectados o tempo todo. Será que isso é necessário? Será que a gente precisa acessar 15 vezes o Facebook? Se em cada uma delas, eu permanecer 15 minutos, já serão algumas horas por dia...Será que eu preciso passar tanto tempo assim numa rede social? Acabamos negligenciando as pausas, tão importantes para o bem-estar e para a saúde.
Esta pausa é exatamente o quê?
Pode ser o não fazer nada, pode ser uma caminhada em silêncio, pode ser 10 minutos de meditação, pode ser ir pra janela e olhar para o dia lá fora ou, se não tiver janela no lugar, olhar para dentro de si, para a paisagem interna. O importante é a interrupção deste fluxo implacável da vida cotidiana. A gente também consegue transformar a pausa em compromisso, desde que aprendamos a levá-la a sério. Porque viver no piloto automático como a gente está vivendo, sem parar e sem refletir, é caminhar de olhos vendados para o abismo. Tudo é uma questão de escolha. O que é uma prioridade pra mim? Entrar no Facebook pela quinta vez no dia ou parar e conversar com um amigo, ligar para um filho ou simplesmente ficar em silêncio? Temos a possibilidade da escolha. Só que a vida está num ritmo tão vertiginoso que a gente tem a sensação que não é possível escolher. A gente se deixa levar. A vida não tem que ser assim. Ela não tem que ser um castigo, uma sucessão de atividades penosas. Porque hoje a gente corre, corre, compra, compra, se estressa, e depois diz: "A vida é assim". Não, a vida não tem que ser assim! Há uma margem para a escolha pessoal. Tem um pedaço grande da vida que não admite escolhas, nos é imposto. Mas existe uma parte da vida que está nas nossas mãos. Como usar esta parte, é decisão de cada um.
Gentileza gera gentileza. Esta máxima é verdadeira?
Entrevistei (o sociólogo holandês) Rutt Vennhoven (que estuda a felicidade) e ele me disse depois de duas horas de entrevista, em uma parada para o café, uma coisa importante. Depois de estudar tanto a felicidade, ele está cada vez mais convicto que a coisa mais importante para a gente viver bem é conviver bem. Ele diz: "Vive bem quem sabe conviver. A arte de conviver é tão importante que deveria ser ensinada em escolas". É o que ele chama de competência relacional. Hoje quem quer ter qualidade de vida aposta em caminhadas, pilates, toma chá verde, come linhaça dourada e semente de chia. Tudo isso está na moda, o pacote qualidade de vida. Mas de nada adianta tudo isso se você não der atenção especial à qualidade dos relacionamentos pessoais. E a gente se esquece disso. Não adianta todas estas práticas saudáveis se você tem conflitos em casa ou no trabalho.
O que podemos fazer para ter relacionamentos melhores?
Resgatar o básico, que está cada vez mais esquecido. Entre os ingredientes básicos para se ter bons relacionamentos, eu cito dois: a gentileza e o bom humor. A gentileza, o respeito e a civilidade são fundamentais para qualquer convivência de qualidade. Pesquisas mostram que em centros de terapias intensivas que têm equipes médicas rudes e grosseiras, as taxas de mortalidade são mais altas. Outra pesquisa: funcionários que tem chefes mal-educados têm 30% mais chances de desenvolver doença cardiovascular. Ou seja, em ambientes onde prevalece a grosseria e o desrespeito não há qualidade de vida. E a infelicidade daquele ambiente migra para outros lugares que aquelas pessoas frequentam. A cadeia da grosseria vai se perpetuando. É uma burrice porque quando você comete uma grosseria você eleva o nível de estresse do seu ambiente, o que vai se voltar contra você. Nem que for por egoísmo, a gente tem que aprender a ser mais gentil. O outro ingrediente é o bom humor. Onde o mau humor dá a tônica não existe qualidade de vida. E também estamos abandonando o bom humor.
É possível competir sem se estressar?
Um certo grau de estresse é inevitável. Competir é medir forças, é ter que se superar. É ter que vencer desafios e isso gera estresse. O estresse positivo é aquele que faz com que você se supere para atingir um objetivo, triunfar. O outro é aquele que extrapola, que adoece, que causa infelicidade. A competitividade pode estar associada a um estresse positivo. A fronteira, contudo, é tênue e pede uma observação. Você pode passar para o outro lado quase sem perceber.
O que podemos fazer para tornar o mundo menos estressante?
A chave de quase tudo nesta vida está no equilíbrio emocional. A gente tem que perseguir isso. Pessoas que têm esta capacidade se relacionam melhor, vivem melhor, têm mais oportunidades profissionais. Por isso considero as pausas muito importantes. Com as pausas, a gente está caminhando rumo ao equilíbrio emocional. E é com este equilíbrio que nós vamos ter mais prazer no trabalho, ter mais satisfação em casa, ter civilidade e parecermos mais agradáveis. A gente está se esquecendo de ser agradável. Queremos ser magros, jovens, ter status, e estamos esquecendo da coisa mais importante que é sermos pessoas agradáveis. Pessoas agradáveis vivem melhor e permitem que pessoas que orbitam em torno dela também vivam. Porque as pessoas pesadas e desagradáveis não só vivem mal como condenam as pessoas que vivem em seu entorno a viver mal também.
O seu livro é uma receita de felicidade?
Escrevi o livro "A arte de ser leve" como uma proposta de reflexão e não como uma prescrição. Reflito sobre a questão da qualidade de vida e sobre os valores e comportamentos que têm nos distanciado dela. A reflexão não tem o objetivo de apontar caminhos definidos e muito menos definitivos do que quer que seja. Confesso no livro que não sou uma pessoa leve, faço tratamento contra a depressão e síndrome do pânico há muito anos. Lido cotidianamente com a ansiedade e com a angústia. E é justamente pelo fato de que ser leve para mim é algo tão difícil que eu resolvi escrever o livro. Não é para ensinar, é para aprender.
Como sua experiência pessoal influenciou o conteúdo do livro?
Saí pelo mundo procurando respostas, primeiro para mim. Fui a Portugal, aos Estados Unidos, à França, à Holanda, ao interior de Minas, a São Paulo, ao Rio de Janeiro procurando caminhos para minhas indagações. Aprendi muito escrevendo o livro. Isso não quer dizer que as conclusões que eu cheguei tem que ser as conclusões que o leitor vai chegar. É apenas uma proposta de reflexão. Receita para qualidade de vida é igual receita para emagrecer, para vencer a depressão. Funciona para uma pessoa, é um desastre para outra. Não tenho o objetivo de ensinar quem quer que seja a fazer seja o que for. É um livro de uma jornalista não é o livro de uma especialista em comportamento que atende em consultórios, que acolhe pacientes em divãs.
Escrever o livro afetou sua vida pessoal?
Depois de ouvir tantas pessoas para escrever, depois de carregar mundo afora tantas perguntas, tantas inquietações e lidar com tanta gente, modifiquei várias coisas na minha vida. Desacelerei imensamente. Durante muito tempo eu conciliei o cotidiano da televisão, com palestras pelo Brasil, a dedicação aos livros, mais as crônicas para uma revista. Exceto meu companheiro, não tenho parentes em Belo Horizonte minha família mora em Araxá (360 quilômetros de distância). Sentia uma falta imensa de ver minha família. Com o impacto do livro, voltei a fazer psicanálise. Quero ter cada vez mais tempo para escrever, tempo para viver. Diminuí a agenda de palestras pela metade. Não passo mais um mês sem ir a Araxá. Escrever este livro me ajudou a pisar no freio, a definir prioridades, a conviver mais com minha família, a ter mais tempo para ler e escrever, as coisas que mais amo no mundo. Encontrei um refúgio na Serra da Canastra, um lugarejo de cento e poucos habitantes onde eu escrevi meu último livro. Em um ano, fui lá seis vezes. Fico isolada, sem celular, sem TV, com pouca internet. Lá tenho mais de tempo de me conhecer. Tenho 61 anos, talvez devesse ter feito isso 30 anos atrás. Não fiz. Mas sempre é tempo.


