Vida melhor?
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de agosto de 1997
Fernando José Dias da Silva 
O crescimento populacional diminui, aumenta a expectativa de vida, há mais brasileiros na escola e as famílias têm menos crianças para sustentar. Esse é o último relatório do IBGE que quase levou à histeria vários senhores comportados que fazem parte do governo. Eles ficaram eufóricos e não seria nenhum exagero dizer que no recato de alguns gabinetes, com as cortinas fechadas, é claro, tenha sido entoado o brado de guerra: Ah...eu tô maluco... Ah,... eu tô maluco.
Fernando Henrique também mandou ver. Abriu o seu sorriso de aeromoça de orelha a orelha e fez elogios a si mesmo. O presidente tinha um motivo maior ainda para ficar contente: a notícia que a inflação em São Paulo foi de 5,81%, a menor em 46 anos. E aí desandou a falar que estava construindo um novo país, que o Estado não estava sendo demolido pelo governo. Estava sendo reformulado para ter a capacidade de competir e ter políticas que melhorem as condições de vida da população. FHC arrematou afirmando que só os cegos da oposição imaginam que o governo não está dando atenção ao social. Beleza.
Só que um dia antes a Corporate Resources, uma entidade suíça que publica anualmente a lista das cidades mais caras do mundo, colocou São Paulo em 15º lugar. E em primeiro lugar, como cidade mais cara da América Latina. Como é que uma cidade com 5,81% de inflação pode sustentar o honroso título de ser a mais cara do continente? Só pode ser coisa da oposição lá da Suíça. Da oposição lírica e sem projeto, como diz Fernando Henrique.
O pessoal anda exagerando. Está faltando mais esclarecimento. Mais verdade sobre a situação. Não dá para ficar inventando empregos onde não existem soluções que não podem ser alcançadas e versões que não correspondem à verdade. São encenações trucadas, percepções fictícias, verdadeiros simulacros de realidade que estão sendo apresentados como soluções, que não passam de artificialismo, de alternativas apresentadas para resolver problemas que são de fundo, não estão na superfície. E isso vale para o governo e para a oposição.
Como é que pode se dizer que os problemas das polícias civil e militar vão ser resolvidos através de uma reunião com governadores e da escalação de uma comissão de notáveis para encaminhar o assunto? Só falta um detalhe bem pequeno: descobrir de onde vai sair o dinheiro para botar em andamento qualquer plano que for eventualmente adotado.
Parece que os governadores ainda não constataram que os seus Estados estão quebrados. E vão continuar assim daqui para frente, porque o estilo é esse. Não adianta demitir todo o efetivo do funcionalismo público. Não adianta interromper todas as obras para economizar. Não adianta colocar os Estados à venda, por preço de ocasião. De qualquer jeito não vai sobrar dinheiro para cuidar da Saúde, da Segurança e da Educação. Os tempos são de supremacia do privado sobre o público, do individual sobre o coletivo.
É interessante o governo falar em resolver o problema da segurança quando faz todo um jogo para diminuir a receita dos Estados. Só na Saúde haverá um corte de 17 milhões de reais por mês no repasse das verbas para São Paulo, no próximo ano. E essa conta não é da oposição. É de deputados tucanos que estão apavorados.
Em todo setor existe um caso escabroso como este. A educação nunca foi tão enfatizada como no momento atual. Ela tem a função básica de aprimorar os recursos humanos, de aumentar a capacidade de gerar renda das pessoas e contribuir para o desenvolvimento econômico do País. Só que tem médico com especialização, engenheiro e professor que ganham salário de analfabeto. E uma grande parte dessa gente tem noções de informática, o grande veículo da nova revolução do homem.
A oposição, diante de tudo isso, fica fazendo círculos no ar. Não apresenta uma proposta com lastro para encaminhar estas questões. Continua com um discurso voluntarista. São iguais aos outros, só que com o sinal trocado. Eles não admitem críticas, acham que a verdade só pode pairar sobre suas cabeças e, enquanto isso, a oposição extraparlamentar, aquela que circula pelas bordas, vai ocupando espaço de forma atabalhoada e radical.
Está tudo uma beleza.


