Vida de índio
Em nossos momentos mais preciosos de lazer, férias, feriados reinventamos a vida de índio. Não me refiro à vida do índio da atualidade, mas aquela encontrada na época do achamento do Brasil.
Primeiro negou-se esta vida, destruindo-a fisicamente quase em sua totalidade; ideogicamente, até hoje tenta-se o mesmo. No entanto, esta vida continua habitando nosso ideário. Aqui ou acolá ouvimos que a população ''descoberta'' era inferior, sem pudor, preguiçosa, não tinha gosto pelo trabalho, realizando-o apenas para asobrevivência.
Ah! quando chega em nossas mãos o calendário de um novo ano, o que religiosamente primeiro procuramos é o número de feriados, recessos, quando então podemos imitar a vida de índio: preguiçosos, despodurados, despreocupados, festejando a ociosidade.
Entre nossas utopias não está também a do vício gostoso de gastar o tempo inutilmente? Preferencialmente, longe da poluição visual, sonora, e de outras que produzimos para nosso conforto e bem-estar.
Já o primeiro feriado nos excita. Ansiosos arrumamos a mochila ou entrochamos o carro indo à praia por mais distante que esteja ou criando-a junto a lagos ou rios. Despojamo-nos das roupas e passeamos com o mínimo possível ou até sem elas. Indústrias inventam comidas naturais, praticamos turismo ecológico, andamos no mato, seguimos trilhas, admiramos cachoeiras, o céu estrelado, o nascer do sol, ritualmente abraçamos árvores a até fazemos pedidos à mãe natureza. Procuramos hotéis-fazendas, pousadas com cabanas, frequentamos acampamentos que reproduzem o que destruímos e negamos na vida dos primeiros habitantes.
Por mais que procuramos teorias, estas não nos convencem que esta prática é ruim, aborrecida ou irritante. Com intensidade, órgãos oficiais ou não estimulam-nos a cuidar do meio ambiente, e principalmente este ano, a campanha da fraternidade tem como objeto de reflexão o tema ''Água''. Essa vida de índio que tanto idealizamos, não vai de encontro com a nossa prática diária, quando jogamos lixo no chão, que vai parar em bueiros poluindo rios. E assim, inúmeros exemplos poderiam ser citados de desrespeito ao planeta Terra, também conhecido como planeta Água. Não é uma incoerência que instituições tenham necessidade de estimular-nos a cuidar do meio ambiente?
Desejando tanto vida de índio, por que não valorizamos e respeitamos a natureza como uma divindade que nos oferta bens necessários à vida? Vida de índio, nossa colorida fantasia preferida: resquício pré-histórico ou utopia de nosso dia-a-dia?
MARLENE ANA KIEWEL é historiadora e cronista em Curitiba
41-666-5377/3027-8158
* Os artigos para o Espaço Aberto devem ter, no máximo, 35 linhas e podem ser encaminhados pelo e-mail [email protected]. Textos acima dessa medida não poderão ser divulgados. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal.





