Pesquisa 'Qualidade de Vida' realizada pela UniFil constatou que 25,9% dos londrineses estão insatisfeitos sexualmente. Mas, o que seria satisfação sexual? Será que estamos mais liberados sexualmente?
O psicanalista Marcelo Castro conversou com a FOLHA e falou sobre a influência dos padrões da sociedade sobre o nosso conceito de satisfação, além de avaliar o comportamento sexual dos adultos hoje. Também comenta pesquisa realizada em capitais brasileiras que atesta que 47% dos brasileiros fazem sexo sem vontade.
Pesquisa realizada com londrinenses revelou que 25,9% estão insatisfeitos sexualmente. O senhor se surpreende com esses índices?
Satisfação sexual é a questão. Em que contexto que se dá, quais os parâmetros que alguém tem para declarar-se satisfeito ou insatisfeito com a vida sexual? A própria satisfação sexual em si não é uma verdade absoluta. Ela é um produto de um meio cultural. O que é satisfação sexual hoje, não é satisfação sexual que foi há 50 anos, não é necessariamente o que vai ser daqui a 10. Tudo isso é muito relativo.
As pessoas ainda têm dificuldade em falar de sexo?
Pois é, falar do que no sexo? Esse interdição no falar, no admitir, no colocar também é muito inerente à pessoa humana. O que está muito liberado no nosso tempo não é o falar no sexo, é a banalização principalmente em termo de imagens, é a banalização do erótico. Apelo erótico como fim de consumo em si mesmo. Não creio que nossa moral sexual esteja mais liberal. Está mais banalizada.
Pesquisa realizada em dez capitais brasileiras apontou que 47% dos brasileiros fazem sexo sem vontade. Porque as pessoas têm tanta dificuldade em assumir para o parceiro que não querem?
Cada caso vai ser um caso. As pessoas têm dificuldade em admitir esta insatisfação ou esse não desejo, porque hoje, antes de mais nada, é errado não gozar. Graças a esse mecanismo curioso e absurdo que estamos vivenciando hoje, perdeu-se o direito do sujeito à sua insatisfação. Você é taxado de errado, resvala quase que para um lado moral, o sujeito sente-se culpado por não estar funcionando bem, desempenhando bem. As exigências hoje para o desempenho são massacrantes.
E nem para o parceiro ele admite isso?
Nem para o parceiro vai poder ser admitido. Na verdade, o que acontece? A esposa, não se dá conta de que é sujeito de uma própria sexualidade e a insatisfação dela nesse momento, ou a dificuldade sexual dela é um sintoma de uma sexualidade que começou antes mesmo daquele marido. Mas, e dentro daquela relação conjugal, que outros aspectos estão rolando para que uma mulher ou um homem não se deem conta de que têm o direito ao gozo ou o direito a não gozar? Isso continua proibido como na época vitoriana.
Por outro lado também, o ''estou cansado'' nem sempre é uma desculpa, é uma realidade por causa o excesso de trabalho. Como o casal pode driblar isso?
Esse casal precisa se dar ao direito de pensar que insatisfação é essa, onde estaria a insatisfação e que padrão está tendo para tanto. Porque viram que deve-se ter duas ou três relações sexuais por semana para ser um casal correto? Muitos casais funcionam muito melhor no seu final de semana. Aonde foi que eles perderam a noção de que eles podem desfrutar e não é que tem que desempenhar? O mais acertado para esse casal é perceber que está havendo alguma coisa, algum problema. O melhor é perceber esse sintoma do que tentar tapar.

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