Vícios privados, virtudes públicas
Cláudia Prochet
Sem dúvida, o momento que vivemos atualmente em Londrina causa perplexidade. Aqui, e em todo o País, começamos a descobrir o poder da nossa própria voz e a aprender como usá-la, ainda que surpreendidos com seu som e com as respostas obtidas.
Atinge-nos assim, uma espécie de desconforto, causado pela repercussão de nossos próprios atos, que tornados públicos mancham a imagem de perfeição e beleza que queremos projetar, mesmo que esses atos não tenham sido praticados por nós diretamente, mas por quem teve nossa licença e mandato para realizá-los.
Tentamos explicar tanto tempo de silêncio com a justificativa da ignorância, mas será que não preferimos fechar nossos olhos, ouvidos e boca em nome de uma farsa mais agradável? Quais valores usamos para aceitar o engano, os aproveitadores, o populismo demagógico, a insatisfação, as desigualdades sociais?
Até que ponto deixamos que a ilusão de uma harmonia virtuosa construída com serviços públicos deficientes, habitações populares e postos de saúde doentes nublassem os vícios de superfaturamentos, licitações fraudulentas, propagandas enganosas e mau uso das verbas públicas?
A vaidade de fazer parte do poder, seja na mais simples associação de bairro ou numa secretaria de governo, ou o interesse pessoal de ser contemplado com a prestação de um serviço, o pagamento de uma propina ou até um cumprimento dos eleitos, torna muito difícil a exposição das feridas encobertas.
Quando o bem público se incorporou ao patrimônio privado de alguns – ou muitos – dos que deveriam vigiar a sua correta destinação, foi iniciado um processo infeccioso que agora aparece e atinge proporções de epidemia, tantos são os afastamentos e as licenças baseadas em problemas de saúde ocorridos nos últimos dias, entre os envolvidos.
Também aqueles que não fazem parte da ação ora intentada contra o prefeito, mas que por vias transversas tentaram atrapalhar sua realização, como os vereadores que se recusam a cumprir a ordem de dar posse ao sucessor legal, permitindo que interesses particulares e eleitoreiros desafiem o seu dever inafastável, mostram nítida intenção de esconder sua contaminação.
Porém, é do conhecimento até dos menos letrados que para poder sarar, qualquer machucado deve ser primeiro aberto e – revelada toda a sujeira –, limpo com a retirada de todos os corpos estranhos e a posterior aplicação do remédio adequado ao ferimento, o que não é tarefa fácil nem simples.
E o agente desse tratamento, dessa mudança no estado de saúde ética do município, será sua sociedade, que terá que dominar seu desconforto em admitir suas mazelas e ministrar o remédio amargo da lei para os culpados e do ostracismo para os que se mostraram coniventes ou condescendentes. E para os que, tendo feito a escola da corrupção, intentarem novas candidaturas, o medicamento correto será o desprezo nas urnas.
Quem vier depois, encontrará um caminho árduo a trilhar, precisará de muita coragem e força para conseguir sanear o fosso que a cidade se transformou, e certamente para isso, terá que tornar público o vício da antipatia, já que o caixa do município está quebrado. Contudo, se possuir as virtudes privadas da retidão, da honestidade e da competência, a imunidade contra a corrupção será sua maior aliada na conquista dos cidadãos.
- CLÁUDIA PROCHET é advogada em Londrina. E-mail: [email protected]

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