Jovens que nasceram entre 1990 e 2000 são criados sob a perspectiva de conexão contínua

Um número enorme de pessoas que ficam continuamente conectadas não desenvolve a dependência


Passar horas e horas navegando nas ondas virtuais é um hábito comum, seja a trabalho ou por diversão. Jogos, bate-papo, sites de relacionamento, pesquisas escolares. São vários os motivos para ficar no computador. O que muitos não sabem é que isso pode se tornar um vício.
Segundo Cristiano Nabuco de Abreu, psicólogo e coordenador do Programa para Dependência de Internet do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), a estimativa é de que no Brasil haja 4,5 milhões de dependentes e que esse número possa aumentar com a inclusão digital. ''O que vamos ver é uma escalada exponencial, diferentemente do que você vê em países asiáticos. Lá, embora a dependência ainda não seja um diagnóstico reconhecido oficialmente, já é considerado um problema de saúde pública'', atesta.
Há um limite saudável para o número de horas que passamos conectados à internet?
Não utilizamos o critério do número de horas, exatamente por entender que muitas pessoas acabam ficando muito tempo por necessidades pessoais. O que temos que analisar é uma somatória de aspectos. Por exemplo, indivíduos que acabam ficando muito mais tempo do que precisariam e com isso têm o comprometimento de outras atividades regulares do seu dia a dia, como problemas no trabalho, problemas acadêmicos, familiares.
Pessoas que trabalham com o computador têm mais tendência a se tornarem dependentes?
Sim e não. Por um lado, se a pessoa tiver predisposição, ela se encontraria em um ambiente favorável para isso. Por outro, tem um número enorme de pessoas que ficam continuamente conectadas e não desenvolvem a dependência. Tem que ter a somatória de dois fatores. Indivíduos que estariam passando por algum quadro de depressão ou fobia social teriam na internet um tipo de refúgio onde teriam a liberdade de regular o humor. Quando ele usa a internet fica bem humorado, pelo fato de algumas substâncias serem liberadas, como a dopamina. Isso leva o indivíduo a ficar cada vez mais conectado e aí se cria um ciclo vicioso onde ele se sente mal, vai para a internet, tem o humor melhorado, precisa usar cada vez mais a internet para continuar mantendo o humor e isso vai criando uma tolerância onde progressivamente ele precisa de mais e mais.
Como é feito o diagnóstico?
Nós temos um inventário de dependência de internet, disponível também no nosso site: www.dependenciadeinternet.com.br. Lá o indivíduo pode fazer o teste e junto a isso temos uma avaliação clínica. Muitas vezes familiares acompanham e de uma maneira ou de outra reforçam essa questão, dizendo se a pessoa está ficando mais tempo do que poderia, se está sofrendo prejuízos.
Qual é o tipo de tratamento oferecido?
Nós oferecemos acompanhamento psicoterapêutico, ou seja, psicoterapia de grupo e, no caso da presença de outros transtornos associados, medicação. Com isso você teria a perspectiva de uma recuperação mais rápida e mais efetiva.
A inclusão digital pode aumentar o número de dependentes?
Acredito que sim, o que vamos ver é uma escalada exponencial, diferentemente do que você vê em países asiáticos. Lá, embora a dependência ainda não seja um diagnóstico reconhecido oficialmente, já é considerado um problema de saúde pública. O Brasil acho que ainda vai levar um certo tempo para chegar nesse estado, é um problema a médio, longo prazo.
Como os pais podem gerenciar o acesso ao computador?
O que a gente costuma sugerir é que o uso da internet seja semelhante a qualquer outra atividade que você tenha, como, por exemplo, ir a academia, estudar. O problema que temos e que começa a criar uma outra dimensão, é que hoje nós temos o que se chama de geração digital, que são jovens que nasceram entre 1990 e 2000 e que já teriam sido criados sob a perspectiva dessa conexão contínua. Eles não sabem o que é efetivamente viver sem a conexão do computador. Isso vai criar um problema muito grande porque eles não conseguem se divertir, não conseguem ter qualquer outra atividade que daria para eles essa perspectiva de entretenimento.
Hoje a internet já é acessada através de outros aparelhos. É mais difícil fazer o controle?
Sim, isso vai se tornar um problema porque à medida que a internet vai migrando para o celular, ela cria um impacto maior porque você vai tendo uma amplitude de acesso muito mais descontrolada. Nesse sentido, se você for considerar que os jovens ainda não têm maturação cerebral, principalmente do ponto de vista do controle dos estímulos, quer dizer, o adolescente até os seus 18, 20 anos tem dificuldade de se controlar. Essa molecada que acaba sendo exposta a tecnologia teria na verdade uma perspectiva de danos muito maior, porque de fato, biologicamente, eles não são dotados dessa capacidade de controle e isso criaria problemas a medio e longo prazos.

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