Roupas miúdas, alguns agasalhos, calçados, objetos de higiene pessoal e máquina fotográfica. A bagagem de uma viagem deve ter incluído qualquer equipamento que registre fotos e vídeos, até para que se tenham boas recordações. Entretanto, vê-se por aí muitos exageros. Perceba, quando se está em algum ponto turístico pelo mundo, a quantidade de pessoas portando máquinas e equipamentos fotográficos a registrar todos os detalhes da paisagem.
É intrigante, no entanto, como certas pessoas desperdiçam o tempo da contemplação em busca de imagens sequenciais, uma após outra. Trocam o êxtase do sentir pela mecânica do estocar (registrar). Trocam a abstração do momento pela coleção de imagens que posteriormente de tornam fragmentos de lembranças.
A melhor máquina fotográfica que existe é o nosso cérebro. Mais do que imagens, registra as emoções sentidas em nossa alma num determinado olhar, num determinado momento. Nenhum Instagram, Facebook, Smartphone, SnapChat, máquina fotográfica ou qualquer outra ferramenta do tipo, é capaz de registrar a emoção que sentimos quando deparamo-nos com uma imagem especial. Aquela que fez nosso coração palpitar.
As paisagens naturais ou os monumentos históricos, por vezes, estão na frente dos viajantes durante alguns bons minutos. No entanto, há algumas raridades que só permitem estar diante do visitante durante pouco tempo, como a Mona Lisa, pintura de Leonardo da Vinci, no Museu do Louvre, em Paris. Ou então a passagem do papa Francisco num papa móvel, por exemplo. Será que vale a pena perder a visibilidade real para garantir a imagem virtual?
É uma grande decepção quando se olha para uma foto e se percebe que a imagem não foi capaz de registrar os sentimentos, mas registrou apenas a plástica momentânea e estática. O que a imagem significa para uns pode ser completamente diferente do que significa para outros porque o nosso cérebro é capaz de captar sentimentos que a máquina não registra. A máquina não tem a capacidade de mostrar tudo o que envolveu nossa mente naquele instante. Onde ficou o perfume? Qual o sabor que teve? Qual a intensidade do toque? Qual a sensação da brisa? O sussurro do vento? Ou seja, qual o verdadeiro foco desejado?
Uma foto não traduz o gozo do contato íntimo com a natureza, com a paisagem, com a obra de arte, com a arquitetura preservada. Não é incomum nos depararmos com pessoas que, ao viajarem, trazem para casa centenas e até milhares de fotos de viagens de uma semana ou 15 dias. Conheço o caso de uma pessoa que voltou de uma viagem com mais de 800 fotos. E depois não sabia o que fazer nem identificá-las. Não sabia quais eram os locais, os pontos turísticos.
Obviamente, as fotografias são importantes para guardar as lembranças das viagens que fizemos. Mas, não são o único elemento de uma viagem. Há os sabores gastronômicos, o silêncio das paisagens, igrejas e parques, as belezas de uma flor. O cheiro e as cores das cidades. Muitas vezes perdemos tanto tempo correndo para tirar as fotos sem degustar dos momentos, sem abstrair que inspiração aquela paisagem transmite.
Ninguém é contra a fotografia, mas falta-nos bom senso e o equilíbrio para medirmos a quantidade e o momento correto de registrar. Uma imagem vale mais que mil palavras. Mas nem sempre muitas imagens traduzem uma viagem, um momento.

CACO BRAILE é professor de administração da PUC-PR, campus Londrina



■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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