''Mais uma vez o Brasil comete erro histórico de planejar em cima da hora. Isso tem reflexos: o primeiro é que pode não dar conta e o segundo é que fica mais caro.'' O diagnóstico da situação vivida pelo Brasil, que corre contra o tempo para não passar vergonha como sede do maior evento esportivo do mundo em 2014, é de Paulo Resende, professor e coordenador do Núcleo de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral.
De acordo com Resende, por conta da falta de planejamento o Brasil precisa colocar em prática um plano modesto para sediar a Copa de forma eficiente e criar soluções temporárias que podem ficar prontas e funcionar durante o mês da Copa. Ele critica as medidas do governo para flexibilizar as leis de licitação para agilizar o andamento das obras para Copa. ''A opção de correr com as obras aproxima o País perigosamente do risco de superfaturamento e corrupção''.
Além do gargalo dos aeroportos, que, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), não ficarão prontos a tempo, Resende também aponta outros problemas que colocam em risco o sucesso do evento: mobilidade urbana, recursos humanos e telecomunicações. ''Imagine, logo após um jogo importante da Copa, centenas de correspondentes internacionais transmitindo dados pela internet em Manaus ou Cuiabá. Nós mesmos já temos queda de rede no nosso celular e computador sem essa demanda'', alerta.
Estudo recente do Ipea mostra que a maioria dos aeroportos não estará pronta para a Copa do Mundo. Enfrentamos risco de caos aéreo durante o evento?
Nos principais aeroportos do Brasil nós não precisaríamos nem da Copa do Mundo para observar isso. O próprio crescimento natural da economia brasileira provoca um aumento muito grande no número de passageiros, com uma média de 15% ao ano na última década. Estamos nos aproximadando perigosamente de uma queda muito grande no nível de serviço dos aeroportos. Precisamos intensificar o investimento nos aeroportos com urgência.
Mas há um problema: a Copa do Mundo está muito próxima. Se formos investir na duplicação dessa capacidade através de terminais permanentes corremos o risco de não ter isso pronto para a Copa.
Por isso o Brasil vai ter que continuar fazendo investimento de emergência para garantir capacidade de longo prazo. E tem que ter criatividade para inovar nas soluções temporárias, que são aquelas que podem ficar prontas para atender a Copa.
Que soluções criativas e temporárias o Brasil poderia colocar em prática para suportar a demanda aeroportuária?
Uma solução é o chamado Terminal Temporário, que é uma solução de engenharia onde você monta um terminal com estruturas pré-fabricadas e ele funciona como um Lego mesmo. Você só monta para um determinado evento. O Terminal Temporário tem a característica de poder ser feito com rapidez. No entanto, ele não se insere no sistema aeroportuário, pois não é permanente. É uma solução que aumenta a capacidade num curtíssimo prazo.
Outra solução seria o chamado Aeroporto Temporário. Uma cidade como o Rio de Janeiro, por exemplo, tem dois aeroportos principais, o Galeão e Santos Dumont. Em compensação há um aeroporto em Jacarepaguá, que é usado só para aeromodelismo, mas tem uma pista. Então para o evento aeroportos como este de Jacarepaguá seriam revitalizados e receberiam voos. Logo depois do evento eles são desativados e voltam a ter função normal, sem linhas comerciais. São essas soluções que o governo vai ter que perseguir.
Por que chegamos a esse ponto, uma vez que o País conquistou o direito de sediar a Copa em 2007?
Falta de planejamento de longo prazo. Esta é uma posição que o Brasil não está acostumado a ocupar. Planejar significa fazer uma projeção de demanda, não de atender apenas o momento, mas prover o aeroporto para atender bem lá na frente. Infelizmente o Brasil nunca se preocupou em ter planejamento de longo prazo para infraestrutura. Por isso estamos vivendo esse momento de pressão política em cima do governo para que a imagem do Brasil não fique manchada durante a Copa.
Mais uma vez o Brasil comete um erro histórico de planejar em cima da hora e isso tem reflexos. O primeiro é que pode não dar conta e o segundo é que fica mais caro. Aí se começa a procurar soluções para conviver com a emergência, um exemplo é essa medida que o Congresso acaba de aprovar para flexibilizar a concorrência.
Como você avalia essa medida de flexibilização da lei para obras relacionadas à Copa?
Não há dúvida que o Brasil está se aproximando do risco da corrupção. A nossa história mostra que quando a gente flexibiliza as leis, imediatamente o vazio criado pela flexibilização é ocupado por atos ilegais. A opção do Brasil para correr com as obras aproxima o País perigosamente do risco de superfaturamento e corrupção.
Por que o investimento em infraestrutura é tão defasado no Brasil? É por que não dá voto?
O Brasil nunca prestou atenção num plano de desenvolvimento de longo prazo. Todo investimento que fazemos hoje é um investimento que recupera o vazio do passado. É por isso que muitas obras quando acabam no País já precisam de expansão. Considero isso não uma questão do governo atual, nem do anterior. O Brasil trocou o ''planejamento'' pela ''engenharia''. Pois engenharia dá voto, tem inauguração. Planejamento não dá voto. O Brasil sempre trocou a agenda do desenvolvimento pela agenda política. E toda vez que se faz esse câmbio você corre o risco de acumular gargalos e é isso que temos no Brasil atualmente: um acúmulo de gargalos.
Uma saída para reestruturação dos aeroportos seria a concessão de terminais à iniciativa privada?
Se pressionarmos a iniciativa privada para dar conta daquilo que não conseguimos fazer até agora acho que corremos o risco de desmoralizar a iniciativa privada, como boa gestora de aeroportos. Corremos o risco de chegar a um mês da Copa e jogar toda a culpa na iniciativa privada. Eu acho que a forma de não conviver com isso é separar o que é planejamento para 2014 e o que é planejamento de longo prazo para 2020. O planejamento para Copa tem que ser modesto, de intervenção mais criativas, para que possa dar conta daquele mês do evento. A iniciativa privada tem um papel importante, pois é capaz de prover essas alternativas com rapidez. E por outro lado cobrar da iniciativa privada a reativação dos projetos de longo prazo.
Além dos aeroportos quais seriam outros gargalos que o Brasil precisa resolver até a Copa?
A mobilidade urbana é um problema muito sério. O Brasil nunca deu atenção necessária à questão de transporte coletivo, principalmente metrô. Outro gargalo importante é a questão de telecomunicação. O País tem uma capacidade de transmissão de dados muito pequena.
Imagine, logo após um jogo importante da Copa, centenas de correspondentes internacionais transmitindo dados pela internet em Manaus ou Cuiabá. Nós mesmos já temos queda de rede no nosso celular e computador sem essa demanda. Imagine quando forem bilhões e bilhões de dados sendo transmitidos ao mesmo tempo.
Outro gargalo é o setor de serviços, os recursos humanos. A necessidade que taxistas, motoristas de ônibus, atendentes de hotéis, entre outros, vão ter de atender turistas numa língua estrangeira.
Quais as soluções para esses gargalos?
É necessário fazer simulações, e com base nos dados dessas simulações preparar planos de contingência para conviver com possíveis gargalos. Nesse caso é treinamento, nas diversas cidades. Talvez no dia do jogo seja preciso fechar determinadas avenidas, garantir uma mudança de tempos de sinais de trânsito, criando corredores especiais até os estádios. Tudo isso vai exigir muita criatividade, mas dá para fazer.
Os estádios também não seriam um gargalo?
Hoje em dia não considero como gargalo. Pois é o seguinte: o Brasil escolheu doze sedes, não tem problema nenhum, em termos de cronograma. Se amanhã três ou quatro estádios não ficarem prontos, dá para fazer a Copa com oito estádios. O problema é o superfaturamento nos estádios, todos feitos na correria.
O Brasil deveria desistir de sediar tanto a Copa quanto a Olímpiada como defendem alguns especialistas e políticos da oposição?
De forma alguma, isso seria muito ruim para imagem do País. Temos que ser realistas, não querer enfeitar. Temos que sediar a copa de forma eficiente.

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