Vestibular: vai passar ou não vai passar?
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quarta-feira, 16 de julho de 1997
Marcelo José de Castro 
Quando nos deparamos com o agito na cidade por ocasião do vestibular, alguns ficamos aborrecidos, outros esfregamos as mãos. Indiferente, provavelmente ninguém fica. Ou seja. Vestibular não é assunto só para os adolescentes vestibulandos.
Desde minha experiência clínica com adolescentes e seus familiares, vejo que muitas vezes os pais, quando sinceramente dedicados a seus filhos, sentem que não sabem bem o que fazer quando chega a tal adolescência. Por isso, proponho entendermos o momento de ansiedade por ocasião do Vestibular inserido em um contexto mais amplo, ou seja, como uma das muitas formas de expressão em nossa cultura das profundas ansiedades e mudanças que já estão ocorrendo no cenário familiar que vivencia a adolescência de pelo menos um de seus protagonistas. Tanto é assim que em países em que a forma de ingresso à Universidade se dá por outros caminhos, muitas das angústias nesse momento são as mesmas, ainda que ninguém fale de Vestibular.
De certo modo, pode-se fazer uma analogia entre a adolescência e o luto (entendermos o luto como um processo psíquico normal e necessário, por mais que doloroso, frente a situações de perda de algo ou alguém que amamos; outra coisa é o luto patológico). Pois bem, na adolescência enfrentamos pelo menos três perdas muito significativas: perdemos o corpo infantil (as espinhas na cara, o jeito desengonçado, a voz oitavada que o digam), perdemos a identidade infantil (nosso papel na sociedade, as novas responsabilidades e exigências), e, ainda por cima, perdemos os nossos próprios pais (me refiro àquela imagem infantil de papai e mamãe, normalmente idealizada e que geralmente na adolescência fica no mínimo arranhada por descobrirmos que eles não são tão perfeitos ou poderosos como imaginávamos).
Por isso adolescência quer dizer adoecer. Mais que um dado etimológico, creio que há muito para se pensar a respeito, e não são poucos os investigadores do tema que chegam a dizer que a adolescência normal não existe; ou, melhor dizendo, o normal na adolescência é justamente uma certa anormalidade.
Por isso também vale dizer que a adolescência é, ela mesma, um verdadeiro vestibular. Vestibular, vestíbulo, aquele recinto pelo qual passamos antes de entrar em um aposento mais importante. Adolescência é essa passagem, este espaço que, por mais transitório que seja, não deixa de ser também um momento importante em que muito de nós mesmos está sendo posto à prova, sem que disso nos apercebamos.
Então, quando perguntado pela gentil repórter da Folha sobre a ansiedade dos adolescentes nesse momento de exames vestibulares, a primeira coisa que veio à mente deste ex-vestibulando de Medicina foi outra pergunta: Mas o que tenho eu para dizer à moçada? Que se cuidem, que cheguem pelo menos descansados para as provas, que se lembrem que não é mais hora de se agarrar nos livros, que se tranquilizem porque o maior adversário talvez não seja o concorrente da carteira ao lado e sim a ansiedade do lado de dentro de sí mesmo, isso creio que todos, pais preocupados e vestibulandos ansiosos, já o sabem muito bem. Creio também que todos, de um modo ou de outro vão fazer o melhor que puderem.
Ao vestibulando, pode ser útil dizer que, se o seu assunto é uma carreira universitária, então que tal entender que já se foi o tempo em que o diploma na mão garantia muito mais que hoje? O mercado de trabalho está pedindo profissionais cada vez mais bem preparados - e isso exige disciplina, decisão, estudo contínuo. Seu resultado nos exames de agora poderá ser muito útil como termômetro, por exemplo para avaliar até que ponto você de fato, está decidido quanto à carreira a seguir. Também pode dar uma boa dica sobre prováveis temores quanto a ser mais independente de seus pais.
E aos senhores pais creio que nunca é demais lembrar que já foram adolescentes, e que na melhor das hipóteses também tiveram seu direito à ansiedade e à inquietação, àquela saudável irreverência, e as enormes dúvidas sobre o futuro, tão grandes quanto os próprios sonhos que um dia tiveram. Há tempo, calma, calma. É importante ver o filho ou a filha passar no Vestibular. Mas nunca é demais lembrar que esse momento é deles, antes de mais ninguém.
Já está passando muita coisa importante na vida dos nossos filhos, desde bem antes da inscrição para o Vestibular. Vale a pena perguntar a eles. Reduzir cruelmente toda a beleza desses anos de vida (dos adolescentes, dos pais, da família) ao vai passar ou não vai passar nos obriga antes de mais nada a investigar até que ponto estamos inconscientemente colocando no adolescente o cumprimento de algum desejo que na verdade é nosso.
Aliás, Chico Buarque compôs muita coisa linda além de (Vai passar e Não vai passar). Inclusive Anos Dourados.
- MARCELO JOSÉ DE CASTRO é médico pela Universidade Federal de Minas Gerais e psicanalista pela Asociación Psicoanalitíca Argentina


