Vestibular, um rito de passagem? - Maria Lucia Victor Barbosa
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sexta-feira, 19 de março de 1999
Maria Lucia Victor Barbosa 
Hoje, quando tanto se fala sobre educação no Brasil, como alavanca necessária para se obter bons empregos numa sociedade cada vez mais competitiva, é bom que se reflita e se discuta sobre o assunto, pois ele diz respeito a cada um de nós e à Nação como um todo.
Naturalmente, este é um debate antigo, que nos faz retroceder para uma melhor compreensão ao passado colonial onde a educação era privilégio de poucos em detrimento da larga base populacional. Mesmo porque, tínhamos em termos de estratificação social duas categorias rigidamente determinadas, os senhores e os escravos, e entre estes a pequena parcela daqueles a que se referiu o francês Louis Couty em 1881, como os que nascem, vegetam e morrem sem ter quase servido à sua pátria.
O tempo passou, mas a educação continuou elitizada. Além disso, mantinha de modo geral a característica voltada para a retórica, a erudição, era pouco ligada à realidade e adornada com múltiplos e cansativos conhecimentos inúteis. Deste modo, as profissões se aprendiam na prática, depois de cursadas as faculdades e o anel de formatura colocado no dedo, o que não difere muito dos dias atuais.
Mas mesmo com todos estes problemas, certos colégios e universidades ministravam bases educacionais mais sólidas. Também havia acertos, como no caso dos cursos clássico e científico que triavam para a universidade, conforme as inclinações dos estudantes para as áreas das ciências humanas, exatas ou biológicas. No curso clássico dava-se mais ênfase às línguas, à filosofia, história, geografia. No científico, martelava-se mais na física, química, matemática, biologia. Esse ensino desembocava num vestibular diferenciado conforme as áreas, e adequado às nascentes vocações.
Aos poucos foi mudando o Brasil, urbanizando-se, recebendo o impacto do avanço dos meios de transporte e de comunicação. Neste processo, as repercussões sobre a educação seriam inevitáveis: mulheres ingressam em universidades, os mais pobres começam a ter acesso à escola, diminui o analfabetismo.
Se esta foi uma faceta extremamente positiva, estávamos longe, por exemplo, da Argentina. E aqui recorde-se um extraordinário governante deste país no século passado: Domingo Faustino Sarmiento, autor da obra Facundo: civilização e barbárie. Este liberal, esse autodidata, foi antes de tudo um educador. Ele guardava no fundo de si mesmo a certeza que o levaria a afirmar sem hesitação (conforme citado por Léon Pomer em seu livro, Sarmiento): Todos os grandes acontecimentos do mundo hão de ser de hoje em diante preparados pela inteligência, e a grandeza das nações há de se estribar menos nas forças materiais que nas intelectuais e produtivas de que se possam dispor.
Nunca tivemos essa mentalidade pelo menos em termos de êxitos concretos, pois as várias reformas feitas com base nas críticas da elitização do ensino não surtiram os efeitos esperados. Se antes se criticava a elitização da universidade que só absorvia alunos de renda mais alta, a mudança para o vestibular unificado, a cópia do sistema de créditos das universidades americanas, etc., foram medidas tomadas em nome de uma democratização da universidade, mas cujo resultado foi o da massificação. Sem estrutura e infra-estrutura para suportar a quantidade, a qualidade que existia se degradou. A decantada democracia se converteu numa ilusão, pois para os alunos de renda mais baixa, esse tipo de universidade não oferecia a igualdade de oportunidades própria dos sistemas democráticos. Sem prepará-los adequadamente, não elevava seu status, não os adestrava para enfrentar o mercado de trabalho das profissões mais conceituadas e mais bem remuneradas.
Hoje, a despeito de todas as falhas, dos faz-de-conta do ensino, dos caça-níqueis que se alastram pelo país multiplicando cursos e instituições educacionais, a universidade continua a atrair um número cada vez maior de estudantes. Num país em que todos querem ser doutores, transpor o vestibular significa cumprir um rito da passagem. Sem este, segundo condicionamento imposto socialmente, o indivíduo não alcançaria a situação antes desfrutada por uma minoria que conjugava riqueza e conhecimento, e que agora seria ofertada a todos através do conhecimento que conduz à riqueza. Mas estará o vestibular adequado aos dias que correm? Poderá este rito de passagem favorecer verdadeiramente às vocações, adequando-as mais tarde às sonhadas profissões?
Tomemos o caso da Universidade Estadual de Londrina - UEL, classificada em terceiro lugar no País pelo MEC e, por isto mesmo, exemplo bastante significativo. Veremos, então, que nas alterações para o próximo vestibular de inverno da UEL, as matérias das áreas biológica, exata e humana contém pesos muito semelhantes. Assim, o peso para química e biologia é igualmente 100 para a área de exatas e humanas. Física e matemática pesam 100 para a área biológica e humana. E o inglês, língua básica do futuro milênio, pesa 50 para todas as áreas. Mesmo que algumas matérias possuam peso de 150 conforme a área, isto não quebra a deformação inerente a critérios que impedirão, por exemplo, um brilhante aluno de passar em Direito porque não tem vocação para matemática ou física, como o vestibulando que procura a área das ciências exatas. E não faz sentido o inglês com seu peso 50, contra o peso 100 da física e da matemática para alguém que quer fazer um curso de línguas, mesmo com o número de questões diminuídas.
Neste mundo em rápida transformação, em que as pessoas procuram freneticamente fazer mais e mais cursos para satisfazer exigências cada vez maiores do mercado de trabalho, a educação brasileira, do jeito que está, ainda não propicia o nível necessário de excelência, adequado à desumana competição moderna. E é bom que se discuta e se reflita sobre isto, pois o tema faz parte do nosso futuro.
MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina.
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