Vestibular de cara nova - Telma Gimenez
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de fevereiro de 1999
Telma Gimenez 
Embora motivo tanto de aplausos efusivos quanto de críticas contundentes, as reformas educacionais em curso administradas pelo governo federal têm sido pautadas por dois eixos principais: a criação de parâmetros curriculares nacionais e sistemas de avaliação. A melhoria da educação, acredita-se, resultará do oferecimento de balizas para o ensino e de instrumentos que verifiquem seus resultados. Embora a caixa preta do que acontece entre um e outro possa ser objeto de reflexões mais aprofundadas, crê-se que essas duas forças deverão direcionar o processo de mudança.
O acesso ao ensino superior não pode fugir às questões desafiadoras trazidas no bojo desse processo. É sabido que a demanda por mais vagas nos cursos universitários (até porque inflada pela queda dos índices de evasão e repetência) exerce pressão crescente sobre as universidades, pressão essa refletida principalmente através do número de candidatos por vaga e da explosão do sistema privado de ensino.
A nova LDB (Lei de Diretrizes e Bases), ao deixar livre a decisão sobre formas de acesso ao ensino superior abriu possibilidades que são agora contempladas pelas universidades e noticiadas na imprensa como sendo o fim do vestibular. Uma análise das alternativas apresentadas, no entanto, nos mostra que o quadro não é bem esse.
Enquanto em outros países as formas de ingresso nas universidades podem ter um caráter diagnóstico para direcionamento na escolha da ordem das disciplinas que serão cursadas pelos candidatos (por exemplo, o Sat nos Estados Unidos), avaliando também aptidões, em nosso País os instrumentos - principalmente em universidades públicas - têm o caráter de avaliação de conteúdos. Isto significa que são medidos apenas os conhecimentos ministrados em nível anterior.
As alternativas que ora se apresentam não colocam em xeque esses pressupostos. A proposta de provas ao final de cada ano do ensino médio, por exemplo, reduz o estresse causado por prova em época única e apenas ao final desse grau de ensino, mas não modifica, por si só, o perfil do candidato bem sucedido. A análise do histórico escolar não permite comparação entre candidatos e, portanto, enfraquece o caráter classificatório necessário em um sistema de alta competitividade.
O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), aplicado pelo MEC poderia ter características semelhantes ao Sat americano, mas ainda não está atrelado às novas diretrizes curriculares nacionais. As provas consideradas como vestibular tradicional em suas possíveis versões (múltipla escolha, dissertativas, mistas etc.) são ainda modelo para a maioria das universidades, embora algumas delas já estejam combinando-as com outras alternativas como as citadas acima.
Assim, o que se coloca não é o fim do vestibular, mas um novo vestibular, que seja resultado de deliberações que levem em conta seus pontos fracos assim como suas vantagens e os novos desafios da educação brasileira. Há que se reconhecer, principalmente, o impacto que um exame desse tipo pode exercer sobre o ensino e a necessidade, portanto, de estar em consonância com os rumos que se quer imprimir ao ensino médio.
É somente no processo de reavaliação do papel da universidade e do perfil desejado de seus alunos que novas formas de avaliação poderão ser engendradas.
- TELMA GIMENEZ é professora universitária em Londrina


