Em janeiro e julho Londrina ganha um colorido bonito: jovens alegres e esperançosos chegam, lotam hotéis, pensões, iluminam a noite nos barzinhos e lanchonetes, perambulam pelas ruas, visitam lojas, shoppings, cinemas. Eles não vêm a passeio, embora se divirtam muito enquanto estão por aqui. Vêm prestar vestibular concorrendo a uma vaga na Universidade Estadual de Londrina (UEL). A concorrência é assustadora.
Vemos que a cidade é oxigenada pela avalanche de pessoas que injetam na praça milhões de reais. O mercado imobiliário tem perspectiva renovada com a procura de imóveis para abrigar os novos alunos; muitas lojas vendem como se fosse véspera de Natal. Os cursinhos têm sempre casa cheia, pois quanto maior a dificuldade, mais alunos terão, mais lucros terão. As faculdades particulares da região recebem milhares dos alunos, aqueles que não conseguem sua vaga na UEL. Geração de empregos, lucros, comércio que fervilha, tudo perfeito.
Mas perguntamos: qual é o preço pago por tanto benefício aos cursinhos, ao mercado imobiliário, aos hotéis, aos bares, aos restaurantes, às faculdades particulares, e porque não dizer, benefício à própria UEL, que cobra inscrição de seus vestibulandos?
Qual é o preço que estamos pagando? Quantos bons profissionais de nossa cidade e região, formados na UEL há dez, quinze, vinte anos ou mais teriam seguido a carreira que resolveram abraçar se naquela época os cursos da UEL tivessem a concorrência por vaga dos dias de hoje? Quantos jovens inteligentes, estudiosos, têm seu destino profissional interrompido por esta mesquinha estratégia mercadológica para atrair turistas? Quantos paranaenses, estudantes da região, deixaram ou vão deixar de frequentar a faculdade porque em algum momento resolveram fazer do vestibular da UEL uma mercadoria?
Minha família é numerosa, tenho irmãos que se formaram na UEL em Medicina, Odontologia, Veterinária, Agronomia e um que está cursando História. Sei que se fosse hoje, talvez não conseguíssemos uma vaga, e, com certeza, seria impossível suportar os custos de faculdades particulares. Qual teria sido então nosso destino?
Será que estou querendo promover a segregação? Não, de forma alguma. Acho que os estudantes que vêm de fora muito contribuem para o calor e o aconchego que tem nossa cidade, mas devemos separar uma coisa da outra.
Deveria haver apenas um vestibular durante o ano, e que coincidisse com as datas dos exames de outras universidades. Qualquer pessoa, de qualquer lugar, que escolhesse a UEL seria muito bem vinda; apenas não acho justo impor uma concorrência desumana – dividem o número de vagas para cada vestibular, levando alguns cursos a ter a relação 130 candidatos/vaga – sendo que a universidade que deveria beneficiar a região, tem suas vagas pulverizadas de forma absurda em nome do lucro ou por qualquer outro motivo que se distancia da sensatez.
Não seria justo se impedissem que um estudante paranaense fosse até outra localidade prestar vestibular e estudar. Porém existem princípios, estratégias e políticas educacionais. Quais serão os princípios que seguem as pessoas que planejaram dois vestibulares ao ano, com divisão ao meio das vagas para cada exame semestral? Quais serão os princípios e prioridades de quem escolheu a dedo a época dos vestibulares para que houvesse o maior número possível de candidatos, em detrimento dos canditados da região?
A manutenção da UEL provém de recurso dos contribuintes paranaenses que pagam impostos. Pagam, mas não são revertidos para a educação de seus filhos; e depois pagam mensalidades em faculdades particulares para que seus filhos estudem. Isto quando podem pagar. Também não se pode esquecer que muitas destas faculdades não têm condições de ofertar cursos na mesma qualidade daqueles da UEL.
Estou colocando o dedo em uma ferida. Estou mexendo no bolso de quem está lucrando. Estes são interesses imediatistas de quem não vê muito longe, aliás de quem não vê ou não quer ver o que está perto. Se querem turistas, por que os hotéis, bares, restaurantes, lojas não promovem mais festivais de teatro, de música, competições esportivas?
- JOSÉ DE CARVALHO JÚNIOR é acadêmico de Direito da UEL

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