Universidade pública é privilégio dos ricos, e os pobres pagam a conta. A afirmação, dita em entrevista à FOLHA pelo mestre em economia da educação Gustavo Ioschpe, gerou polêmica. De acordo com o perfil sócio-econômico dos candidatos ao vestibular 2008 da Universidade Estadual de Londrina (UEL), mais da metade dos concorrentes tem renda familiar de até sete salários mínimos, sendo que, para 27%, a renda é inferior a três salários mínimos.
Rosângela Ramsdorf Zanetti, diretora de avaliação e acompanhamento institucional da pró-reitoria de planejamento da UEL, diz que os números mostram o compromisso público da universidade e o caráter heterogêneo dos estudantes.
O que mostram os números da pesquisa sócio-educacional realizada com os candidatos ao vestibular da UEL?
O perfil do candidato começou a ser analisado no vestibular do ano passado. Antes disso, desde 2001 realizávamos um estudo semelhante com o perfil do ingressante. Agora é possível identificar como está a procura pelo nosso vestibular. Paraná e São Paulo são os estados onde moram a maior parte dos candidatos, sendo 63% daqui. Divindo por áreas, a gente percebe nos cursos de biológicas uma procura maior por candidatos do estado de São Paulo.
Qual a explicação para isso?
Um dos motivos possíveis é que os cursos da área biológica têm uma oferta menor no País. Mas a gente deduz também que os cursos da UEL nesta área estão com qualidade maior ou igual às instituições públicas de São Paulo, o que atrai estes candidatos. Entre os paranaenses, ainda há procura maior para a área de Exatas e Humanas.
Essa proporção de um em cada três candidatos ser de outros estados está dentro do que a universidade espera?
A universidade é pública. Embora seja estadual, a nossa função maior enquanto instituição de ensino é estar aberta a receber candidatos de todos os lugares. Mas apesar deste número considerável de paulistas, a grande maioria dos ingressantes ainda é do Paraná.
Os candidatos estão mais bem preparados?
A maioria não fez cursinho preparatório, ou seja, eles saem do segundo grau e já vão fazer vestibular. As escolas particulares sempre tiveram um certo compromisso de conseguir altas taxas de aprovação, mas a gente vê que as escolas públicas também estão melhorando muito. A qualidade cresceu bastante depois que foram incluídas no Ensino Médio disciplinas como Sociologia, Filosofia, que antes eram presentes apenas nas particulares. Há um comprometimento maior em fazer com que o ensino público esteja cada vez mais integrado.
Apesar dos poucos anos de implantação, já dá para dizer que o sistema de cotas foi bem sucedido?
Sim, tanto que os resultados das avaliações feitas pelos colegiados mostram um bom desempenho dos cotistas. No início, havia um estigma de que os ingressantes por cota teriam muita dificuldade de acompanhar as aulas, com desempenho inferior aos outros. Está comprovado que este argumento não é válido. Percebemos que há um comprometimento e uma dedicação muito grande dessas pessoas que entram pelas cotas, de responder e valorizar este ''privilégio'' que a instituição e o Estado oferecem.
Com relação à renda familiar, qual o perfil dos candidatos?
Nós tivemos 62% com renda de até sete salários mínimos. Destes candidatos, quase 27% têm renda de até três salários mínimos, enquanto no outro extremo 13% têm de dez a 15 salários mínimos. Muita gente acha que universidade pública é só para quem tem dinheiro, mas os números mostram que na UEL isso não é uma realidade. Somos uma universidade pública e heterogênea, que recebe estudantes de todos os lugares, raças e poder aquisitivo.

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