VERGONHA NACIONAL - Brasil decepciona em ranking de qualidade da educação
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Paula Costa Bonini<BR>Reportagem Local 
Os professores não ganham minimamente o que merecem
Profissionais têm que fazer os alunos sentirem vontade de aprender
Professores despreparados, salários baixos, falta de infraestrutura nas instituições de ensino, altos índices de analfabetismo e de evasão escolar. A qualidade da educação no Brasil ainda está muito aquém do desejado. É o que mostra o último relatório ''Educação para Todos'' divulgado pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco). De um total de 128 países, o Brasil ocupa a 88posição no Índice de Desenvolvimento Educacional (IDE), ficando atrás de nações mais pobres como o Paraguai, o Equador e a Bolívia.
Mas, afinal, quais são as causas do pífio desempenho da educação brasileira? Como mudar este panorama? Quem analisa o resultado da pesquisa é Ângelo Ricardo de Souza, doutor em educação e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR). ''A proficiência dos nossos alunos de oitava série equivale ao que esperamos de crianças de quarta (série)'', lamenta. Ele acrescenta que aplicar as provas não é suficiente para melhorar a qualidade da educação. ''É importante entender por que o aluno não aprendeu. Temos que avaliar os erros e corrigi-los. Reprovar a criança não resolve o problema'', ressalta.
Quais são as causas do pífio desempenho da educação brasileira no IDE, ficando atrás de países mais pobres?
Estar à frente ou atrás de alguns países não significa ser melhor ou pior. É preciso evitar comparações. Se o Brasil está aquém do Paraguai em relação ao conjunto geral do índice, ele está acima em outros fatores.
O índice é calculado a partir de três quesitos: a universalização da educação obrigatória, a alfabetização adulta e a qualidade educacional. Mas o posicionamento do Brasil é realmente ruim, pois o país tem condições de ter indicadores melhores.
E o por que o Brasil não apresenta indicadores melhores já que tem condições?
O quesito da alfabetização adulta é um dos piores. Outro fator é que temos um desequilíbrio de aproximadamente 12% entre homens e mulheres no sistema de ensino. O Brasil ainda não potencializa o mesmo acesso e permanência às meninas do que aos meninos. Além disso, temos uma evasão muito alta. De cada 100 crianças que entram na educação obrigatória, 16 não chegam à quinta série.
O Ideb foi uma ideia muito perspicaz do Ministério da Educação para tentar quantificar parte dos problemas educacionais que nós temos. Não traduz a qualidade e sim a falta dela. O Ideb mostrou que a proficiência dos nossos alunos da oitava série apresentam indicadores equivalentes ao que esperamos das crianças de quarta (série). Isso tem relação com a infraestrutura das escolas, mas também com o perfil dos docentes.
O senhor acredita que o salário dos professores da rede pública está defasado? Qual seria o valor ideal?
Desde que a educação passou a ser massificada o salário dos docentes tem diminuído. Os alunos com pior rendimento no Brasil são os dos professores que recebem os piores salários. Os professores que ganham acima de cinco salários tendem a apresentar alunos com melhores resultados. Mas a partir daí o desempenho do estudante fica estável. Receber 15 ou 20 salários não faz muita diferença em relação ao conhecimento do estudante. Traz bem-estar ao trabalhador. Não dá para pagar menos do que quatro ou cinco sálarios aos professores para garantir resultado. Mas uma coisa é ganhar cinco salários morando em São Paulo e outra, no Acre. Os professores não ganham minimamente o que merecem.
O setor privado pode ajudar?
Há um mito no País de que a educação privada é melhor do que a pública. No grupo das melhores escolas do país há uma proporção maior de escolas privadas do que públicas. Todavia, especialmente em cidades maiores, há um número muito grande de escolas particulares de qualidade duvidosa. As boas escolas escolas privadas devem continuar fazendo o trabalho que fazem, mas elas iriam contribuir muito se mostrassem à sociedade o valor da escola pública e se pagassem melhor os professores. A média salarial dos docentes da escola privada é inferior a média paga aos professores da escola pública. O ensino público equaliza as diferenças e a privada, reforça.
O que os professores devem fazer para motivar os alunos e aumentar o envolvimento deles nas aulas?
Esse é o grande desafio. Antigamente os professores só tinham a tarefa de ensinar. Hoje eles têm que ensinar e fazer os alunos sentirem vontade de aprender. Os alunos, mesmo os de baixo capital econômico, têm acesso à internet. Isso proporciona uma riqueza e uma diversidade quantitativa e qualitativa de informações. E na sala de aula isso não se apresenta. O docente continua escrevendo a sua lição na velha e boa lousa, quer que os alunos copiem, e depois elabora questionários.
O educador José Eustáquio Romão, um dos fundadores do Instituto Paulo Freire, afirmou recentemente a este jornal que as escolas transformaram-se no ''maior restaurante do mundo''. Ele diz que os diretores cuidam de assuntos paralelos, como a merenda, e não têm tempo de discutir didática. O senhor concorda?
Não. Respeito muito o José Eustáquio, mas eu não concordo quando ele diz que a escola assume funções que não são suas. Meu conceito de educação e de formação humana inclui outros fatores, como a alimentação, por exemplo. A escola é uma instituição social privilegiada para socializar as pessoas. Não vejo problema da escola assumir outros papéis. A questão é sobrecarregar professores com tarefas de outras coisas além da pedagogia. Se a escola tiver material e pessoas suficientes para ampliar seus braços não vejo problema. Acho, inclusive, uma virtude.
Denúncias dão conta de que a Secretaria Estadual de Educação (Seed) pressionaria os professores a aprovarem a maioria dos alunos, mesmo que não apresentem as mínimas condições. O quanto isso acarreta em deficiências no aprendizado?
A pergunta que deve ser feita é porque o aluno não aprendeu. A mãe reclama porque seu filho foi aprovado sem tirar as notas mínimas. Ela tem razão em reclamar, mas ela deve questionar por que a escola e a família não deram condições para a criança aprender? Ou, se o aluno tem condições, por que não aprendeu? Reprovar não ajuda.
Então mesmo que o aluno não tenha condições ele deve ser aprovado?
Não é isso. A gente tem que avaliar o que deu errado para corrigir. Passar o aluno para a série seguinte não resolve, mas fazer com que ele faça tudo de novo também não resolve. A Seed está agindo equivocadamente quando pressiona os professores a mudarem seus conceitos avaliativos. Os professores estão agindo errado quando acham que reprovar o aluno resolve pedagogicamente o problema.


