Curitiba - A Segunda Guerra Mundial terminou há exatos 65 anos. Em 2 de setembro de 1945, o Japão assinou a rendição aos Aliados, colocando um ponto final no maior conflito da história. Algumas das barbáries vividas naquela época, no entanto, refletem na sociedade atual. Os resquícios de preconceito e da propagação do antissemitismo, que resultou na morte de aproximadamente 6 milhões de pessoas, podem ser vistos até hoje. Esta é a linha de estudo da historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (Leer) da Universidade de São Paulo (USP).
Ela participou da II Semana Cultura e Fé no Mundo Contemporâneo, que terminou ontem em Curitiba. O evento - promovido pela Federação Israelita do Paraná, B'nai B'rith Paraná, Instituto Memória e Pontifícia Universidade Católica (PUC-PR) - teve como tema os 65 anos do término de um dos períodos mais sangrentos da história mundial.
Autora do livro ''O Antissemitismo nas Américas'', Maria Luiza defende em cursos e palestras a importância de se estudar e pesquisar a fundo a história do Holocausto, assim como de outros genocídios e massacres. O principal objetivo é fazer com que a história não se perca na memória das pessoas e evitar que ocorram novos episódios de violência contra a humanidade. A historiadora montou um arquivo virtual com documentos sobre o Holocausto e o antissemitismo, que pode ser acessado no site www.arqshoah.com.br.
Após o massacre comandado pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial, novos genocídios ocorreram. Um dos mais recentes foi na década de 1990 em Ruanda, na África. Como evitar que episódios como esses voltem a ocorrer?
Costumo dizer que o homem não aprendeu a lição do Holocausto. Vemos a repetição da xenofobia, dos massacres das minorias. É por isso que a reconstituição da história através da educação é muito importante. É necessário multiplicar essas informações e não esquecer dos fatos que ocorreram lá atrás.
Muitas vezes o racismo encontra terreno fértil na ignorância. Muitos jovens exaltam Adolf Hitler pois não têm ideia da dimensão dos atos cometidos por ele. Desconhecem a história, as proporções do que é endossar a política e as ideias nazistas. E muitos são influenciados, como também ocorreu na Alemanha nazista, com uma propaganda intensiva. Isso chega aqui através de patrocinadores ligados à extrema direita dos Estados Unidos e da Alemanha, que patrocinam livros, CDs, vídeos e sites.
E como combater a intolerância?
Eu acredito na educação. Tem que haver um trabalho intensivo, não só sobre o Holocausto, mas com relação à temática da intolerância, do racismo de uma maneira geral. Temos que tomar uma providência urgente, pois no Brasil a atuação de movimentos neonazistas se intensifica cada vez mais.
Atualmente também estão em crescimento os movimentos que negam o Holocausto.
Esse é outro elemento a ser considerado. Nas pesquisas para o meu próximo livro, encontrei um documento de um diplomata com o título ''Indústria de Judeus'', no qual ele fala como os judeus se aproveitam da situação de vitimização. Isso traz sérias consequências para a memória do Holocausto. Algumas pessoas assimilam essas informações manipuladas. Isso é um grave risco, não só para a cultura, mas para a sociedade.
O ensino do Holocausto nas escolas é apropriado?
Há uma lacuna muito grande nos livros didáticos, exatamente pelo desconhecimento da história do Holocausto. A maioria dos professores tem uma formação deficiente na própria universidade. Na USP realizamos cursos de pós-graduação para suprir essa lacuna, para que os professores se tornem multiplicadores e formadores de opinião. Estamos tentando formar, junto às universidades, profissionais de História, Ciências Humanas, Literatura, Cinema, Matemática, Geometria, mostrando que você pode estudar o Holocausto não apenas pela história, mas através de um estudo multidisciplinar.
Como os professores podem trabalhar esses assuntos na sala de aula?
Existe um pensamento fechado de que Holocausto, Segunda Guerra e genocídio são assuntos específicos do professor de história. Mas estes temas também podem ser estudados em uma faculdade de Direito, na disciplina de Direitos Humanos, por exemplo. Faltam sensibilidade e conhecimento por parte dos professores. Eu insisto em uma ação educativa enquanto política pública, com o patrocínio de bolsas de pesquisas, exposições, seminários, para se formar uma postura de cidadania e respeito.
A produção artística a partir da guerra é muito interessante. Para quem não gosta de trabalhar isso pela história, é possível também trabalhar pela arte.
Há disponibilidade de material didático suficiente para que o professor possa aprofundar-se no tema?
Se você fizer uma avaliação dos livros paradidáticos (que complementam os didáticos), é possível contar nos dedos as publicações que atendem ao tema. O cinema tem um papel muito importante. Com o filme ''A Lista de Schindler'', pessoas que não tinham conhecimento do Holocausto tiveram contato com o tema. Foi uma abertura. Em seguida vieram vários outros, e agora a internet tem um papel importante, com a disponibilização de fotos e vídeos.

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