Rubem Azevedo Lima
Vergonha e desagregação
Poucos perfis do povo brasileiro se aproximam tanto da realidade nacional, sob o aspecto das preocupações políticas, quanto o das pesquisas da revista ‘‘Época’’, do último dia 23. Mostram-se ali as esperanças de uma nação frustrada pelo que se julga mau desempenho de suas instituições e de seus homens públicos.
O presidente Fernando Henrique Cardoso aparece como a pessoa de quem os brasileiros sentem mais vergonha, superando o ex-presidente impedido Fernando Collor e o empresário e ex-deputado Sérgio Naya, que vendeu imóveis feitos praticamente de areia.
Segundo as pesquisas, os melhores presidentes que o País já teve foram Vargas, Kubitschek e Sarney, sendo que o primeiro obteve, agora, aprovação superior à soma da alcançada pelos segundo e terceiro colocados.
O Legislativo nacional - poder democrático por excelência, pois o povo elege os representantes da oposição e da situação - tem, hoje, só a confiança de 4% dos brasileiros. Como entender esses indícios de desafeição pela democracia?
Eleito e reeleito pelo voto popular, em função das promessas de estabilidade monetária e outras também descumpridas, FHC impopularizou-se, em maior escala, desde a crise econômica e financeira que eclodiu após sua reeleição. Os eleitores sentiram-se logrados pelo presidente que lhes vendera, antes de reeleger-se, a imagem de paladino invencível da nossa moeda.
Mas só isso explicaria que lhe dessem o prêmio da vergonha nacional? Claro que não. A imagem de FHC esboroou-se, ainda, ante a sucessão de denúncias envolvendo seus auxiliares na compra dos votos que lhe deram o direito de reeleger-se ou em operações escusas, no caso Sivam e no leilão das estatais.
Tudo isso graças aos grampos telefônicos, que gravaram o próprio chefe de governo. Existem outras explicações para a rejeição dos brasileiros ao presidente. Como os efeitos devastadores, no plano político e social, da economia praticada por FHC, que provocou o maior índice de desemprego na história do País e a quase total subordinação do Brasil a decisões tomadas no exterior.
Desses males ninguém pode acusar Vargas, Juscelino ou Sarney. Já os dois Fernandos iniciaram, na marra, o processo malcheiroso de alienação das estatais. E o Congresso perdeu credibilidade, em parte, porque os governistas aprovaram, ali, tudo o que FHC quis, jogando o País na crise atual.
O Legislativo é alvo natural da desconfiança da opinião pública. Em termos de repúdio, porém, as ambições dos políticos, aliados de um governo impopular, são, em geral, as mais atingidas, em especial quando eles, fisiologicamente, contribuíram para dar ao presidente o título de campeão da vergonha nacional.
Prejulgamentos à parte, os grampos da privatização das teles servem a vários fins: à corrupção; aos interesses preteridos; ao parlamentarismo; à preocupação com moralidade pública ou soberania do País; e para evitar males maiores.
Vale lembrar: o general Góes Monteiro achava impossível haver coesão nacional e forças armadas respeitáveis em clima de alta corrupção, de má política e sob mau governo.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

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