Verdades e mentiras

Romeu Gomes de Miranda
Desde 95, os funcionários de escolas reivindicam melhoria salarial. De promessa em promessa, o governo vem enrolando. Em 98, concedeu um vale-alimentação de R$ 30 para a faixa de até dois salários mínimos. Esses ‘‘perigosos bandidos’’, como dizem hoje apressados acoólitos do governo, pediam, no dia 15 do corrente, além de reajuste, o dobro do vale-alimentação, a fábula de 1 (um) real por dia, e vale-transporte, prometido pela secretária da Educação em novembro de 99.
O Estado alega enormes dificuldades mas não faz cerimônia para gastar milhões em duvidosas prioridades, como convênio com o Conselho Britânico (US$ 1 milhão); nomeações de ‘‘amigos’’ para funções inexistentes, (‘‘inspetores de ensino’’, por exemplo). Em 99, o governo gastou com os veículos de comunicação R$ 13 milhões e 973 mil. Com cargos de confiança, torrou, em 99, R$ 96 milhões.
Em 15 de março, ao chegarmos na Sead, encontramos a entrada guardada por policiais, as portas lacradas com grossas correntes. Um rápido entrevero provocou a quebra de uma porta de vidro, por onde entraram os funcionários. Imediatamente, a direção da APP postou-se à frente dos manifestantes solicitando que sentassem na rampa de acesso às secretarias.
À porta de entrada dos corredores, postaram-se policiais que não tiveram o menor trabalho. Ali, sem ameaças, manifestantes aguardaram todos os lances da negociação, que terminou por volta das 22 horas, quando o Dr. Pretextato Taborda, chefe da Casa Civil, e outros diretores da Sead firmaram o seguinte acordo: 1) vale-transporte: implantação até final de março; 2) vale-alimentação e reposição salarial seriam temas de duas reuniões: 21 e 22 de março, às 8 horas, na Sead.
Quatro dias após o movimento, jornais ainda repercutiam o fato. O governo faz uma encenação para justificar uma ação sobre o sindicato; dizem que a ‘‘APP vai responder na Justiça por danos morais, materiais e cárcere privado’’.
Danos Morais?
Quem vem sendo moralmente ofendido há anos? Olhemos para os funcionários: não é humilhante receber um salário que mal pode pagar água, luz e alimentação?
Fora o incidente da porta quebrada (que a entidade se prontificou a pagar), não houve outro dano material, não só pela pronta ação da direção do sindicato, mas também pelo sentido de responsabilidade dos funcionários com a coisa pública.
Cárcere privado? Seria trágico, se não fosse cômico! Pode-se acreditar que aqueles manifestantes, maioria absoluta de mulheres, cansadas por uma noite de viagem, mal nutridos, poderiam impedir policiais preparados para dissolver grandes manifestações de massa e garantir a saída dos funcionários daquela casa? Se funcionários ficaram retidos em seus locais de trabalho, foi por duas razões: ou porque a polícia temia que outros manifestantes entrassem ou foi armação para caracterizar ‘‘reféns’’ e responsabilizar a APP. A primeira hipótese já se desmonta pela argumentação anterior. A polícia dispunha de todas as condições para garantir que qualquer funcionário deixasse o prédio. A segunda hipótese então é a que prevalece; há tempo o governo Lerner vem tentando destruir o sindicato.
Esperamos que o governo não concretize as ameaças à APP; temos apostado no caminho da negociação, mas não tentem nos enganar. Não queremos vantagens absurdas, mas recusamos esmolas!
Em tempo: Falas como a do Sr. Joel Samway Neto na Folha do Paraná do dia 20, em nada contribuem! Pelo contrário, só atiçam os ânimos. Classificar como ‘‘banditismo sindical’’ o ato dos funcionários é tentar transformar uma questão social em questão policial; afirmar que houve um sequestro foi de um sensacionalismo barato e piegas. Não tínhamos nem interesse nem condições técnicas de prender, quem quer que fosse dentro das secretarias. Desviar a atenção da sociedade querendo fazê-la acreditar que os educadores dos seus filhos é que são os ‘‘bandidos’’, levará o governo Lerner a um desgaste ainda maior junto à população. Outros governos já tentaram a mesma mágica e até hoje pagam o preço desse mal ensaiado número, digno de um ilusionista amador. Sugiro ao governador que refute conselhos desse naipe e discursos raivosos desse calibre. Geram muito calor e nenhuma luz!
ROMEU GOMES DE MIRANDA é presidente da APP-Sindicato