Não creio ser muito convincente no papel de padre ou de pastor evangélico. Dadas as circunstâncias, porém, sou obrigado a assumi-lo, para dizer o que os convincentes não dizem.
Jesus Cristo afirmou que seu sacrifício se destinava a salvar as almas humanas do jugo da lei. Se professamos acreditar nisso, entendemos que cada ser humano pode optar entre a ordem exterior da lei e a ordem interior da caridade. Se opta pela primeira, cai nas malhas da opinião dominante, isto é, do ‘‘mundo’’. Se escolhe a segunda, não tem outro senhor senão Cristo, e Cristo não está em parte alguma senão no segredo interior de um coração humilde, onde um homem, conhecendo a si mesmo, conhece a seu Senhor - bem longe do que o ‘‘mundo‘‘enxerga.
Podemos aceitar ou rejeitar essa mensagem. O que não podemos é ter dúvidas quanto ao seu sentido: não existe, acima da consciência do indivíduo, outra autoridade, outro juiz, senão o Cristo mesmo. Mas este ‘‘acima’’ quer dizer, na verdade, ‘‘dentro’’. Deus não está acima de nós no sentido em que o capitão está acima do tenente. In interiore hominis habitat veritas, explicou Santo Agostinho. Deus não é ‘‘exterior’’ à consciência: é o seu núcleo mais íntimo e pessoal, é Aquele que, segundo Claudel, ‘‘é em mim mais eu do que eu mesmo’’. Todo ser humano possui esse núcleo e, logo, está apto a distinguir o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, o útil e o nocivo. Nenhum Estado, nenhuma sociedade, nenhuma agremiação ou partido pode ter autoridade maior que a do homem interior. A Igreja mesma, que tantas vezes abusou de seu poder de mestra, sempre reconheceu, como fronteira intransponível, a soberania da consciência individual.
Não é de espantar que, nos últimos séculos, os materialistas e anticristãos tenham feito o diabo para restaurar o poder do ‘‘mundo’’ e desbancar a consciência autônoma. Inventaram, para isso, as mais extravagantes fantasias: o Leviatã de Hobbes, o ‘‘Estado‘‘de Hegel, a Volonté Génerale de Rousseau, o Volksgeist dos juristas alemães, a consciência de classe ’ marxista’’, o Fuhrer abstrato de Carl Schmit, a ‘‘comunidade científica’’ de Charles Peirce, a langue dos estruturalistas e descontrutivistas e, last not least, o nosso arquiconhecido ‘‘intelectual coletivo’’ de Antonio Gramsci, guru de João Pedro Stédile e Fernando Henrique Cardoso. Todas essas entidades disputam com o indivíduo humano a primazia do pensar, do saber e do julgar. cada uma delas pretende ser mais consciente que nós, mais sábia que nós. Algumas pretendem apenas nos julgar e comandar. Outras querem pensar por nós. Outras, mais atrevidas, afirmam que são a única realidade e nós nem mesmo existimos. Algumas proclamam ser detentoras exclusivas da verdade. Outras, fingindo modéstia, dizem que a verdade é incognoscível e logo deve prevalecer a opinião da maioria - da sua maioria, é claro. Os inventores de tais entidades jamais se deram conta de um detalhe deprimente: o número delas é um desmentido cabal das pretensões de cada uma.
Para o cristão, não há a menor dúvida quanto à identidade dessas criaturas do abismo: cada uma delas é o ‘‘mundo’’, é o velho jugo de Anás e Caifás, é a velha opinião coletiva que pretende novamente se interpor entre nós e nosso reino interior, seja para nos ditar a sua verdade, seja para proclamar nossa impotência de conhecer a verdade tout court.

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