Verdade ou consequência - Cláudia Prochet
Verdade ou consequência
Cláudia Prochet
Esse é o nome de uma brincadeira típica da infância que faz parte de um variado repertório, e que todos nós já brincamos um dia, assim como de pique-bandeira, lenço atrás ou esconde-esconde. Mas, embora adultos, não conseguimos esquecer que detetive, cabra-cega, polícia e ladrão existem, quando observamos que um grupo significativo de pessoas crescidas, prolonga-se nessa fase da vida que deveria ter sido oportunamente substituída pela razão e profissionalismo éticos decorrentes da maturidade e que nos levariam a uma sociedade equilibrada.
Tal constatação desanimadora nos remete a Ruy Barbosa, que há muito disse: De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.
Porém, que outro ânimo teremos se o que vemos é o prefeito da maior cidade do País esconder-se dos oficiais de Justiça que o procuram, deixando acéfala a prefeitura para não receber a intimação; e outro que passa a noite escondido no gabinete para não encarar a imprensa, correndo para o pique quando pensa que os venceu pelo cansaço?
Se verbas que deveriam destinar-se à educação não chegam às escolas, indo para o fundo comum, da mesma forma, como nos mostrou o ex-secretário municipal de Saúde de Londrina em artigo recente, o sucateamento do sistema ou abandono de programas fundamentais, como o internamento domiciliar, que vinha obtendo ótimos resultados, mesmo com o aumento relevante da verba encaminhada pelo governo federal.
Ou um chefe de polícia acusado de participação no narcotráfico, homiziado, esperando a poeira baixar. Também a criação de um carrossel de CPIs, já denominadas laranjas, pulverizando o foco do instrumento legislativo de investigação para inviabilizar qualquer obtenção de resultado, e fazer com que tudo acabe em pizza.
E ainda o envolvimento de alguns policiais em desmanches de carros roubados, fazendo com que o cidadão sinta-se com uma venda nos olhos, sem saber a quem recorrer ou como identificar quem está no seu time, já que o uniforme não é mais a representação da segurança, e que passar uma bola, nesse caso, pode significar um gol contra.
Há outras formas de trapacear no jogo, seja multando indiscriminadamente o indivíduo inocente apenas pela necessidade de atingir uma cota, ou permitindo que a finalidade do programa de habitação popular seja desviada do atendimento à população de baixa renda, favorecendo os que têm objetivos de obter lucros e podem dar grandes lances nos sistemas de consórcio, como se viu recentemente, em detrimento do sacrifício do sonho da casa própria dos que deveriam ser primeiramente beneficiados, por não possuírem outros meios.
É de se imaginar que a causa disso tudo é que a nossa democracia tem a idade da nossa Constituição de 1988, pré-adolescente, e por isso vemos nossos representantes no Congresso agirem como meninos às voltas com alterações hormonais típicas dessa idade, ao baterem boca trocando acusações e querendo mostrar quem é mais forte, depois de tantos anos de ditadura quando calar era preciso.
Justificativas há para tudo, principalmente para nos acomodarmos, porém, tomemos como exemplo outro grande homem, Gandhi, que consciente de sua responsabilidade, deixou-nos um rumo: Se ages contra a justiça, e eu te deixo agir, a injustiça é minha. E se for para jogar, que façamos nossas apostas no jogo da verdade e consequência.
- CLÁUDIA PROCHET é advogada em Londrina





