Verbas que faltam e que sobram
Embora as verbas sejam diferentes e não possam ser transferidas de um setor para outro, a opinião pública não consegue compreender o critério e a dinâmica da destinação do dinheiro público. Enquanto a Assembléia Legislativa anuncia que não será possível conceder reajuste salarial aos servidores públicos, decide que a arrecadação de R$ 1,1 milhão com o leilão de veículos da Casa será destinada à implantação da TV para transmitir as sessões parlamentares. A alegação para não beneficiar os servidores é que as contas do Estado estão atingindo o limite máximo de gastos com pessoal previsto na Lei de Responsabilidade Fiscal, embora o sindicato dos atendentes da saúde contra-argumente que há brechas legais para a concessão da gratificação de R$ 400 prometida pelo governo para os 6,8 mil funcionários dessa área. Certamente que a soma correspondente ao luxo e à desnecessidade da tevê não cobre as exigências da melhoria salarial pedida pelos servidores, mas é um contra-senso que certas verbas ''estourem'' quando tenham a ver com quem realmente trabalha caso dos servidores da saúde pública e sobrem para a festa dos deputados. Se o uso de veículos pelos parlamentares já constituía uma pródiga mordomia, o dinheiro da venda da frota ao invés de destinar-se a uma causa social é revertido para um fim sem utilidade pública alguma.
Há servidores da área da saúde que estão recebendo apenas R$ 228 ao mês como salário-base, enquanto os gastos com a Assembléia Legislativa assumem dimensão astronômica, a demonstrar que não é dinheiro que falta nos cofres do Estado e sim critério de distribuição. Se o sistema contempla com vultosa verba orçamentária os quadros da alta linhagem deputados incluídos em desprezo de trabalhadores de um setor vital como o da saúde, consagra-se a perversidade e o predomínio da injustiça. Se a LRF é rígida e deve ser obedecida, parece que não há limite para setores privilegiados, onde o dinheiro é abundante e sobra para os mais exagerados caprichos, entre eles a instalação de uma inútil estação de TV na Assembléia.
Não serão, com toda certeza, as luzes da televisão que irão iluminar as mentes e a imagem dos ditos representantes do povo no parlamento estadual, e nem os cidadãos serão informados de todas as verdades por via dessa tevê pública, porque o que não interessa revelar não irá ao ar, obviamente. Não será a televisão, portanto, a reveladora da transparência. Se setores da categoria dos servidores estão apreensivos e temem, ademais, o corte de horas extras e do adicional noturno, temor algum atinge a classe dos deputados e os respectivos segmentos de gastança que cerca o seu majestoso reino. A pergunta que sempre cabe é até quando será assim, e quando, afinal, se instaurará a sensatez.





