A quase cem dias das eleições, às vésperas de tornar-se o que os americanos chamam de ‘pato manco’, não só pelo fato de estar em fim de mandato, mas também por dar sinais de falta de boa orientação, o governo Fernando Henrique Cardoso marca-se por desrespeitos ao processo eleitoral, portanto, à democracia e ao regime republicano.
Até a imprensa que lhe é simpática relata episódios de interferências do governo para proporcionar a José Serra o apoio do PMDB nas eleições de outubro. Ofereceu-se de tudo aos fisiológicos desse partido para que essa gente, à revelia da militância, aderisse à candidatura oficial. Por muito menos, alegando razões éticas, FHC e outros ex-peemedebistas deixaram tal agremiação e criaram o PSDB.
Releve-se a discutível interpretação constitucional do ministro Jobim, do Supremo – ora na direção do TSE –, do dispositivo legal que fez valer, já neste ano, a verticalização do pleito, inibidora das chances presidenciais das oposições.
Em maio, as usinas oficiais de fabricação de factóides políticos propagaram a idéia de que a vitória de Lula, do PT, então líder nas pesquisas eleitorais, transformaria o Brasil na Argentina de amanhã. A rigor, a situação do País, no tocante às dívidas externa e interna, já nos levara, àquela altura, muito perto do caos.
O ‘‘risco Lula’’ é a tentativa de criação de uma crise, cujo salvador seria José Serra. Vejam só: para FHC, eram catastrofistas os críticos do câmbio fixo, por ele adotado até 1998, que – depois se viu – arrasou US$ 42 bilhões das divisas do País! Agora, seus catastrofistas, esses reais, mudaram a forma de remuneração da renda fixa, traumaticamente, destruindo R$ 1,6 bilhão das poupanças dos brasileiros.
O mercado agitou-se, abalando nossa frágil estabilidade econômica. Tal qual Soros, especulador e ex-patrão de Armínio Fraga, Serra sentenciou: o risco é Lula. Esqueceu os efeitos da adesão letal de FHC às assimetrias da globalização e erros como os da omissão energética, baixa da produção pelos juros altos e tantos mais.
Agora, guardiães da criptografia das urnas eletrônicas, a Abin e o TSE negam à oposição o direito de conhecê-la. Finge-se que a Unicamp não exigiu correções na votação sem controle de tal sistema. As eleições estão, pois, sob suspeita; e o candidato oficial, encalhado no mar das CPIs abafadas, privatizações ruinosas, desemprego, desigualdade social, salários congelados, dengue, pobreza e dívidas do país. Percebe-se, afinal: sem ventos eletrônicos a favor, dificilmente ‘‘la nave va’’.
RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

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