Vender a Vale, não vale!
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de dezembro de 1996
Hermes Parcianello 
Não me conformo com a postura assumida pelo governo neoliberal do presidente Fernando Henrique Cardoso de querer, a qualquer custo, desfazer-se de uma empresa - a Vale do Rio Doce - que não só é orgulho do povo brasileiro, mas que se impõe no contexto mundial como uma das maiores e mais respeitadas de mineração.
Não me convencem os esfarrapados argumentos que estão sendo brandidos pelos defensores da privatização; não me sensibilizam as pretensas razões esgrimidas pela neotecnocracia encastelada no poder, de que vender a Vale significará conseguir recursos para resgatar a enorme dívida social que o Estado brasileiro tem para com a população.
Vender a Companhia Vale do Rio Doce, na verdade, é fazer tábula rasa da gigantesca luta de mais de meio século de um povo pelo domínio de seus recursos minerais. Vender a Vale é menosprezar os esforços e o engenho de gerações de brasileiros.
Estou convencido de que a transferência de bens da CVRD para mãos estranhas atingirá, de cheio, o cerne da Nação, abrindo caminho para a transmigração acelerada dos produtos do subsolo pátrio para sustentar o progresso dos outros, em detrimento das necessidades e carências do povo brasileiro.
Não nos esqueçamos de que o Sistema CVRD compreende hoje 51 áreas de operação, seja em execução própria ou seja por meio de empresas controladas ou coligadas.
Suas atividades abrangem transportes ferroviário e marítimo, portos, metalurgia, mineração, comércio, além das áreas de papel e celulose. O capital social da empresa é de cerca de dois bilhões de dólares americanos, dos quais 55% foram obtidos no mercado externo.
Registrou-se no ano passado a venda de 106 milhões de toneladas de carga total e patrimônio líquido de cerca de 11 bilhões de dólares. E a produtividade atingiu 158 mil dólares/homem/ano.
Sozinha, a Vale consome 2% de toda a energia produzida no país. Fantásticas jazidas de nível internacional estão em poder da companhia. Integram ainda seu patrimônio ferrovias, terminais marítimos, navios, usinas, fábricas, florestas homogêneas, bem como as áreas de servidão para exploração das minas, que ultrapassam um milhão de hectares somente na Amazônia.
Há pois componentes vários no patrimônio da companhia: uma parcela tangível, quantificável, representada pela somatória dos seus bens (navios, estradas de ferro, imóveis, edificações etc); outra parcela, mais valiosa, intangível, porém incontestável, expressa pelo know-how de que dispõe, pela memória de seus empregados, pelo controle das oportunidades empresariais, pelo conhecimento da geologia do país que detém sua subsidiária, a Docego.
É preciso enfantizar também a atuação da empresa, os projetos de infra-estrutura social e econômica que desenvolve nos Estados do Pará, Maranhão, Sergipe, Bahia, Mato Grosso do Sul e Tocantins. Mais de duas centenas de milhões de dólares já foram aplicados pela Vale em empreendimentos que beneficiam diretamente as populações de inúmeros municípios brasileiros nas áreas de saneamento e abastecimento, energia elétrica, educação, saúde, cultura, transportes, telecomunicações e ações assistenciais.
Mas é especialmente sobre o patrimônio mineral de que é titular que recai a cobiça do capital internacional.
A empresa detém hoje 60% das reservas nacionais de minério de ferro, 98% das reservas de alumínio, 97% das reservas de minério de titânio, 91% das reservas de minério de cobre, além de apreciáveis depósitos de ouro, prata, platina, paládio, níquel, molibdênio, caulim, rochas fosfáticas e calcário.
É fácil perceber, pois, que a Vale interessa aos países abonados financeiramente porque controla imensas reservas de minérios considerados críticos para esses países. O controle dessas reservas é vital para a continuidade do progresso das sociedades desenvolvidas.
A extensão do domínio da companhia e de suas subsidiárias e coligadas sobre as áreas de servidão em poder na Amazônia - cerca de um milhão de hectares - serve para aguçar, mais ainda, o apetite externo em relação à empresa.
Urge portanto que ajamos com cautela, a fim de que, a pretexto de preparar-se o país para a globalização - na qual as linhas de fronteira cedem à interdependência, que pressupõe a revisão dos conceitos de soberania nacional - não doemos nossas mais caras conquistas. O episódio da pretendida privatização da Companhia Vale do Rio Doce deve ser um exemplo de nossa resistência.
Tem o meu mais inteiro apoio o movimento que expressivas lideranças do mundo político, jurídico e religioso nacional patrocinam visando sofrear o processo de privatização dessa companhia. Posto-me ao lado do presidente do Congresso Nacional, senador José Sarney, do presidente da CNBB, dom Lucas Moreira Neves, do ex-ministro Aureliano Chaves, do ex-presidente da República Itamar Franco, na mobilização contra as forças impatrióticas que insistem em entregar o controle da empresa a multinacionais de mineração.
A sociedade brasileira, tenho certeza, repudia e abomina essa tentativa temerária de passar adiante um dos símbolos mais pujantes de nossa brasilidade: vender a Vale, não vale.
- HERMES PARCIANELLO é deputado federal pelo PMDB-PR.


