O setor de venda direta tem se tornado uma alternativa de renda para quem está desempregado em função da crise econômica que vem ocorrendo no País. Só no ano passado, este segmento movimentou R$ 41,66 bilhões e hoje tem a participação de 4,5 milhões de pessoas no Brasil, que se dedicam a vender os mais diversos produtos.

Cerca de 90% do volume de negócios é concentrado em produtos de beleza. No entanto, em entrevista à FOLHA, a diretora executiva da Associação Brasileira de Empresas de Vendas Diretas (ABEVD), Roberta Kuruzo, disse que há oportunidades para o setor crescer em outras áreas.

O investimento inicial para começar nesta área gira em torno de R$ 80 a R$ 150 e os vendedores recebem, em média, de 20% a 30% sobre o valor dos produtos que comercializam. Com a presença cada vez mais intensa das redes sociais, esse também tem sido um canal para que os vendedores modernizem as suas atividades. As empresas, inclusive, já vêm oferecendo materiais de comunicação no formato adaptado para o uso nestas formas de tecnologia.

A venda direta tem se tornado uma alternativa de trabalho neste período de crise econômica que o Brasil vem passando?
Ainda não deu para ter um resultado, porque a gente consolida dados anualmente. O modelo de venda direta é mais resiliente em relação a crises econômicas. A venda direta é uma forma de vender por conta própria de maneira muito simples, sem burocracia, democrática e com baixíssimo investimento. Quando você identifica uma empresa que gostaria de representar, você procura a empresa, faz um cadastro comercial e já começa a vender. O que você vende e recebe do seu cliente, você já vai auferindo rendas. As empresas exigem um investimento muito pequeno em materiais para promoção dos produtos. Geralmente, é um kit contendo uma mostra de produtos. Se o vendedor vende esses produtos, ele já consegue pagar essa taxa de adesão por esse kit inicial. É uma alternativa importante e muito fácil principalmente para aquelas pessoas que perderam o emprego ou procuram como uma primeira alternativa de renda para complementar a renda familiar. Como é uma atividade autônoma, ou complementa o salário formal, ou vira sua principal fonte de renda.

Tem aumentado o número de pessoas que vêm buscando a venda direta como alternativa única de renda?
Independente da situação econômica, a gente tem escutado isso bastante de algumas empresas. Como a gente representa o setor como um todo, a gente não dá exemplos de empresas individualmente. Cada vez mais a gente vê pessoas se dedicando integralmente a esse modelo, principalmente em empresas que atuam com uma forma de compensação chamada marketing multinível. Esse modelo de ganhos na venda direta acaba incentivando o empreendedor a se dedicar mais tempo. O ganho é sempre proporcional ao tempo que você se dedica a isso. No marketing multinível, além de você comprar produtos com descontos das empresas e revender com lucro, você também tem toda uma organização em sistemas e processos preparados para você desenvolver uma rede de pessoas que vendem junto com você. Além de você ter seus ganhos atrelados ao lucro da venda dos produtos, você ganha decorrente da venda em rede. Você pode convidar amigos ou outras pessoas que gostariam de investir para atrair para a sua rede. E, (conforme) o volume de negócios gerados nessa rede, você ganha uma compensação financeira, um percentual em cima da venda do seu grupo.

O número de pessoas que atuam na venda direta se intensificou com a crise econômica?
Deu uma estabilizada porque a venda direta tem um grande número de pessoas que entram e saem da atividade. Mas tem gente que tem ficado mais tempo e se dedicado integralmente.

Isso tem sido uma alternativa para as pessoas conseguirem se reposicionar no mercado para quem está desempregado?
Seguramente. Você rapidamente pode iniciar um negócio por conta própria com investimento mínimo ou até zero. Nem todas as empresas cobram por este kit de início. Muitas empresas também oferecem a oportunidade de ter catálogos virtuais. E você começa a vender e ter renda imediatamente.

A crise pode até alavancar mais o setor de venda direta?
Historicamente a venda direta passa por crises econômicas e não sente tanto os efeitos como outros setores da economia. É uma importante alternativa de renda após perda de emprego, com baixo investimento e ganho praticamente imediato. No Brasil, quase 90% do volume de negócios está concentrado em produtos de beleza.

No ano passado a receita do setor cresceu 0,2% e ficou em R$ 41 bilhões. Por que esse resultado de 2014 praticamente estável e qual a previsão para este ano e por quê?
Em 2014 foi um período complicado para a economia como um todo. A venda direta sempre conseguiu passar por crises sem ter nenhum abalo importante. Em 2014, além da crise econômica, a gente teve a Copa do Mundo, que foi um período difícil para o comércio e os serviços. O movimento de negócios ficou muito aquém do que todo mundo esperou. Foi um ano bem atípico até por conta dessa situação que a gente viveu. Mas, por outro lado, a gente vê uma oportunidade grande no nosso setor. No Brasil existe uma concentração em uma só categoria, produtos de beleza. Esse canal pode ser usado por uma série de outras empresas de categorias de produtos, até como uma tendência de distribuição de multicanalidade das empresas. Tem muita oportunidade para produtos de nutrição, produtos para o lar, moda, vestuário, calçados. Há muitas oportunidades de explorar esse canal no Brasil.

Que alternativas estão sendo usadas para modernizar a venda direta hoje?
A tecnologia colaborou muito para a forma de relacionamento com o cliente. Antigamente o relacionamento era por contato por telefone ou por e-mail. Era muito mais pessoalmente. Tem uma ferramenta poderosa agora que são as redes sociais. Os empreendedores têm utilizado as redes sociais, o WhatsApp para se comunicar com os seus clientes e ter uma interação melhor. Você atinge muito mais pessoas por meio das redes sociais do que visitando pessoalmente cada uma delas. Mas temos convicção de que os meios digitais nunca vão substituir o relacionamento pessoal. Você pode ofertar produtos para o cliente, mas uma hora você vai ter que entregar o produto pessoalmente.

Qual é o perfil desse vendedor de venda direta?
O maior percentual é de mulheres, porque a venda direta é predominantemente de cosméticos. Como cada vez mais tem empresas atuando com o marketing multinível, e isso exige gerenciar pessoas da sua rede, atrai também o público masculino para esta atividade comercial. Tem mulheres, homens, várias faixas etárias, depende da empresa e da oportunidade de negócio oferecida pela companhia.

Mesmo com as dificuldades geográficas de chegar a alguns lugares do País, a venda direta consegue atingir esses consumidores?
Não tem outra forma de distribuição mais eficiente do que a venda direta. No varejo tradicional, uma pessoa que vive numa comunidade indígena não tem acesso à loja. Mas uma revendedora Avon pode chegar até aquela comunidade indígena para vender produtos. Muitos usam o transporte em rios. No Rio Amazonas, por exemplo, as empreendedoras saem de barquinho parando de vila em vila para entregar os produtos. Essa é a beleza da venda direta. É muito bem estruturada e organizada a forma de distribuição.

Vários estados fizeram aumento de ICMS, o governo federal também aumentou impostos. Esse aumento de tributos afetou as vendas do setor?
Isso a gente vai sentir só mais para a frente. A venda direta tem uma logística complexa e não dá para você mudar os preços já quando passa a valer um novo imposto. Isso porque os catálogos referentes aos próximos dois meses, por exemplo, já foram entregues nas mãos dos revendedores. Se for uma decisão estratégica das empresas repassarem para o preço, os reflexos serão sentidos lá na frente. Seguramente, tem impacto porque é difícil as empresas absorverem todo e qualquer aumento. Vamos segurar o máximo que a gente pode, mas estamos em um cenário muito difícil.

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