A Companhia Vale do Rio Doce mantém as características básicas que vêm desde a sua criação, em 1942. Pelos seus estatutos, a empresa é muito mais do que um conglomerado econômico. É um poderoso agente de desenvolvimento, encarregado de fomentar o crescimento da economia brasileira, assegurando investimentos na melhoria das condições de vida nas regiões em que atua. E, internacionalmente, é um cartão postal (ou de crédito) do Brasil e forte apoio nas negociações em outras áreas.
A exploração de minério de ferro de Itabira (MG) e a ferrovia Vitória-Minas, implantada por capitais ingleses após a primeira Guerra Mundial, foram nacionalizadas em 42. O momento histórico em que o mundo se encontrava, novamente em situação de beligerância, gerou forte pressão popular. Os brasileiros queriam o alinhamento do país com os aliados (EUA, URSS e parte da Europa) contra o Eixo (Alemanha, Itália e Japão). E queriam medidas urgentes que alavancassem o processo de industrialização do Brasil. Era a campanha do petróleo, de início de implantação do parque siderúrgico nacional e da implantação da Vale. Juntas, a pressão popular e a situação internacional favorável, levaram Getúlio Vargas a adotar medidas nesses setores. Nasceu a Companhia Siderúrgica Nacional e foram nacionalizadas as minas de ferro e a ferrovia, garantindo minério para a nova usina de aço e para a exportação.
Durante mais de duas década, a Vale dedicou-se ao minério de ferro, consolidando suas posições no Brasil e no mundo. Estratégicamente, porém, tudo indicava que a empresa deveria diversificar suas atividades. Houve resistência de economistas e técnicos que, dentro e fora do governo, defendiam que o Estado não deveria ampliar sua atuação no campo mineral. Essas resistências vinham de setores que defendiam ser esse um papel reservado ao capital estrangeiro.
Todos os grupos econômicos do mundo, estatais ou não, passavam por processo semelhante. E todos optaram por dar sinergia (ligar setores afins) a seus processos de crescimento. A Vale também o fez e foi o que lhe garantiu um crescimento rápido e a transformou num dos maiores conglomerados do mundo no campo mineral, da extração à industrialização, passando pelo transporte interno ou transoceânico.
Hoje, a Vale é a maior exportadora de minério de ferro do mundo e, mesmo antes das novas descobertas de Carajás, já é o maior produtor de ouro da América Latina. Atua no setor metalúrgico, especialmente de alumínio, e no siderúrgico, como sócia das principais siderúrgicas brasileiras ou com empreendimentos no exterior. Produz aço nos Estados Unidos e ferro-ligas na França, utilizando lá matérias-primas que exporta daqui.
No campo econômico, a Vale é reconhecidamente uma empresa eficiente, lucrativa e tecnologicamente avançada. Essa avaliação consta do relatório final do consórcio que faz a avaliação e modelagem da venda da Vale, liderado pelo banco americano Merrill Lynch. O lucro líquido da Vale em 1996 foi em torno de R$ 700 milhões. No complexo denominado Grandes Carajás, abrangendo as regiões Norte/Nordeste/Centro-Oeste, investiu na fase inicial U$ 6 bilhões na construção de ferrovias e outras obras que mudaram a face dessas regiões. O valor total previsto é de U$ 36 bilhões em investimentos, montante impossível de ser mobilizado pelo setor privado. E sua capacidade técnica do campo da geologia, por exemplo, está ligada a investimentos de décadas, que passam pela criação de cursos em diversas universidades brasileiras.
No setor ferroviário, a Vale vem investindo maciçamente, particularmente no Centro-Leste do país. Os planos de transformar esse potencial num forte sistema ferroviário nacional, dando intermodalidade ao transporte brasileiro, morre com a privatização.
Esse conglomerado, decisivo estratégicamente para o Brasil no século 21, encontra um Brasil diferente daquele quando a Vale nasceu. Aa pressões populares, embora fortes e consistentes, deparam-se com um sistema de propaganda poderoso, sufocante e implacável. E a situação internacional é a do rolo compressor da ‘‘globalização’’.
O poder Judiciário, a quem vem cabendo a decisão a respeito de aspectos legais, que envolvem questões do direito administrativo e constitucional vem recebendo enormes pressões por parte dos interessados nas privatizações (inclusive bravatas de ministro de Estado), o que deixa ainda mais em xeque a frágil independência do Judiciário em relação aos outros poderes constituídos, em especial o Executivo.
A venda da Vale ainda está sub judice. Ouvir a vontade do povo, que não quer a venda dessa empresa de caráter estratégico para o desenvolvimento do país, e dar altivez ao Brasil nas relações internacionais é sem dúvida a postura mais correta, sob pena de nossa geração, e principalmente dos mentores e cúmplices do desmonte do Estado brasileiro, serem responsabilizados pela gerações futuras.

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