O fenômeno que levou milhões de pessoas às ruas em todo o Brasil em junho deste ano chamou a atenção não só de pesquisadores brasileiros, mas também de estudiosos do exterior. O professor Mário Giuseppe Losano é filósofo do Direito italiano e especialista em informática jurídica e brasilianista. Em passagem por Londrina, Losano comentou que a ida dos movimentos sociais às ruas é um fenômeno semelhante ao registrado na década de 1960 na Itália e em outros países europeus.
O italiano ainda associa as manifestações registradas na Europa em 2011 à atual crise econômica que a Itália e outros países vivem, com a restrição do acesso ao emprego para os jovens.
Nascido em 5 de outubro de 1939, Losano é professor emérito de Filosofia do Direito e de Introdução à Informática Jurídica na Faculdade de Direito da Università del Piemonte Orientale, localizada em Alessandria (Itália), entre outras funções. Publicou mais e 50 livros e de 500 ensaios. Teve suas obras traduzidas em 12 idiomas.
Como o senhor analisa os movimentos sociais que aconteceram no Brasil em junho deste ano?
Tivemos movimentos semelhantes na Europa. Eles não são vinculados a um partido e nem a uma estrutura específica. Por exemplo, eu estudei o Movimento dos Sem-Terra, que já tem uma estrutura sólida. Possui quadros, advogados que se ocupam com assuntos jurídicos. Esses movimentos, ao contrário, são espontâneos, que surgem graças à nova tecnologia da internet.
Como isso acontece?
Sem as redes sociais na Itália, na Espanha e na Alemanha, a movimentação social registrada em 2011 não seria possível, porque não há uma infraestrutura como os velhos partidos políticos, verticais, que têm uma estrutura de propaganda de contato com a chamada base. Aqui a base é líquida, não se sabe quem é quem efetivamente. É uma base que muda de uma manifestação para outra.
E o que isso implica?
É uma dificuldade para os movimentos, pois quando eles precisam tomar uma decisão, só a tomam por meio de assembleia, porque não são estruturados. Nunca se sabe quem participa das assembleias e quem toma as decisões. É um problema comum nos movimentos da Europa.
Isso acontece também
no Brasil?
Não conheço diretamente as características dos movimentos de junho de 2013 aqui no Brasil, porque eu não fiquei aqui. Mas sei que o fator que desencadeou as manifestações foi o preço das tarifas do transporte coletivo. A impunidade é a palavra-chave e provavelmente é o elemento mais mobilizador nas manifestações de junho de 2013.
Como o senhor compara essas manifestações com as que aconteceram em 1968 na Europa?
Eu estava em Paris em 1968. Eu tinha minha bolsa do CNPQ italiano e me fecharam na universidade. Fui lá para fazer um trabalho de livre-docência. Em maio de 1968 aconteceu um movimento tão forte que fecharam as universidades. O próprio presidente Charles de Gaulle abandonou Paris. A essa altura ficou impossível permanecer na cidade e tive que ir para a Alemanha. Mas o movimento de 1968 é um movimento tipicamente análogo aos de agora.
Como assim?
Os movimentos estudantis que aconteceram entre 1961 a 1968 ajudaram a elaborar teorias sobre movimentos espontâneos. São movimentos que já têm caráter histórico. Por exemplo, na Itália surgiram movimentos semelhantes no pós-guerra. Na França, teve um movimento semelhante que foi populista. Todos os movimentos passam por algumas fases semelhantes. A primeira é de formação de um líder. Os movimentos geralmente possuem líderes carismáticos. A segunda é a de expansão, quando o movimento ganha muitos simpatizantes. A fase seguinte é a da consolidação, que pode durar por anos. Depois vem a institucionalização do movimento.
E como o senhor compara com a situação brasileira?
Aqui no Brasil a situação é um pouco diferente porque nos últimos tempos, sobretudo do ponto de vista macroeconômico, a imagem do Brasil no exterior melhorou muito. Do ponto de vista microeconômico ainda tem gente dormindo na rua e sem comer. Por isso aqui a classe política não é tão distante do povo. O problema básico aqui é a falta de igualdade entre a classe política e o povo.
E as manifestações recentes na Europa? Não possuem os mesmos elementos?
Na Europa é um pouco diferente. A crise econômica aumentou a distância entre a classe política e o povo. O povo perde o trabalho, os jovens ficam na rua e isso faz com que os movimentos europeus consigam o êxito que você vê na imprensa. Na Itália, na Espanha, em Portugal, na Europa Meridional, até 45% dos jovens abaixo de 25 anos não têm perspectiva de trabalho. O crescimento da Itália no próximo ano será de 0,1%. Isso significa que a economia continuará parada.
Quais as consequências disso?
O que desanima hoje a juventude nos países que citei não é só a falta de trabalho, mas sobretudo a falta de perspectiva. A essa altura a classe política continua com os seus discursos de poder interno. O governo continua cortando os gastos sociais por causa da crise econômica e gastando com salários gigantescos pagos a todos os políticos e também com gastos militares incríveis. A Itália comprou vários caças, um dos quais custa o equivalente a um hospital gigantesco.
Aqui no Brasil nós temos a Consolidação das Leis Trabalhistas, que visa dar uma certa proteção ao trabalhador, mas os empresários reclamam que ela é protecionista demais. Como é na Itália?
As queixas de protecionismo por parte dos empresários aos trabalhadores são mundiais. Na Itália é exatamente a mesma coisa. O objetivo final deles é sempre aumentar o lucro. Existem poucos empresários como Adriano Olivetti (industrial italiano que fabricava as máquinas de escrever Olivetti), que tinha uma visão política do trabalho. Ele concebia sua empresa como uma comunidade. Na década de 1950, em pleno pós-guerra, oferecia salários mais altos, creche, casas perto da fábrica, cantinas, bibliotecas. Ele acreditava que a fábrica não precisava apenas de pessoas técnicas, mas que poderia enriquecer o trabalho com criatividade e sensibilidade. As medidas que ele adotou só foram reproduzidas 30 anos depois pelas demais empresas. Foi um exemplo de capitalismo. O capitalismo atual é obscuro.
A maioria dos países possui uma legislação trabalhista baseada em constituições do pós-guerra, com características de proteção social. Mas hoje a maioria delas caminha em direção a uma maior flexibilidade, o que implica em uma maior capacidade de demitir.

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