Tamanho é o interesse corporativista dos deputados federais que eles convertem a disputa pela presidência da Câmara no mais importante evento político e, durante semanas, nada mais fazem. O pleito acontecerá dia 1º de fevereiro - já com o novo corpo legislativo instalado - e até lá nada de relevante será examinado, discutido e votado. O tempo corre, com o novo mandato presidencial já na segunda semana (embora com o chefe do Governo em férias), mas pouco está importando aos parlamentares senão essa disputa interna - no caso entre o atual presidente da Casa, Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e Arlindo Chinaglia (PT-SP).
Um dos candidatos é do partido no poder - e seria o preferido de Lula - mas ambos governistas e estreitamente ligados ao Presidente, portanto sem facções contrárias ao sistema instalado. O PMDB, por encontrar ventos mais favoráveis com Chinaglia no comando, já manifestou sua opção pelo candidato petista. À moda Severino, ele acena com vantagens para os colegas, e essa postura entusiasma. Tudo como dantes, embora não se conheça ainda a posição do ''novo'' parlamento, que traz uma leva de novatos. A regra constitucional estabelece que a composição da mesa da Câmara contemple o maior partido - no caso o PMDB - que pode ceder a vaga da presidência. E é o que agora faz ao apoiar o candidato do PT - o segundo maior partido. E não por isso mas também pelo apoio do partido, já manifestado, à nova gestão do Governo Lula.
E essa posição não é gratuita mas uma moeda de troca, porque o PMDB obviamente quer ministérios e não apenas legislar por via de seus membros no Congresso. O pensamento não é articular estratégias para aprovação de leis e reformas de interesse nacional, mas o exercício do poder, porque isto pavimenta o caminho para ambições maiores, pessoais e políticas, de cada parlamentar. Hilariante é ouvir o deputado Chinaglia declarar que ''nós, homens públicos, temos de agir em consonância com a responsabilidade que a sociedade nos delega'', como se houvesse entre eles essa preocupação. E não faltam os que falam da necessidade de recuperar a imagem perdida do Congresso, mas sabe-se que isto não passa de mero e oportuno discurso, que não reflete a filosofia política de nenhum parlamentar.
É entristecedor constatar-se que a eleição da presidência da Câmara - que é de interesse nacional mas, pelo que ninguém desconhece, assanha primeiro as conveniências de ordem interna e de consumo apenas da irmandade ali estabelecida - tome precioso tempo que poderia estar sendo gasto para preparar a pauta de trabalho da nova legislatura, que tem tanto a discutir e a modificar. Os revezamentos vão se sucedendo, a cada eleição, mas o velho regime fisiológico não muda.

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