Velha esquerda, nova direita
Luiz Carlos Hauly
Se alguns taxaram de incentivo ao golpismo, as palavras de ordem das manifestações da Marcha dos 100 mil, convocadas pelas esquerdas lideradas pelos partidos Comunistas do Brasil e Brasileiro, dos Trabalhadores, Democrático Trabalhista, Socialista Brasileiro, Socialista dos Trabalhadores Unificado, além do Movimento dos Sem Terra e a sindical Central Única dos Trabalhadores, entre outros, por derivar para o simplista ‘‘Fora FHC’’, além de ‘‘Renúncia Jᒒ e o dístico ‘‘Eu odeio FHC’’, demonstram o quão estamos longe de termos uma oposição participativa, propositiva e criativa.
Quando o hoje primeiro-ministro Tony Blair disputava a direção do Partido Trabalhista, na Inglaterra que vivia sob a hegemonia do conservadorismo da Dama de Ferro, Margareth Thatcher, houve um intenso debate interno calcado em ‘‘Um novo trabalhismo: uma nova vida para a Inglaterra’’. Dentro das normas democráticas, ele elaborou o livro ‘‘Minha Visão da Inglaterra’’, editado no Brasil pelo Instituto Teotônio Vilela, donde extraio o ensinamento: ‘‘As soluções não nos serão dadas nem pela velha esquerda nem pela nova direita.’’
Preparava-se o caminho para novas idéias e protocolos de intenções para um governo reformador, substituindo o ciclo do thatcherismo. E no Brasil? Foi necessário um esforço enorme da ‘‘federação’’ de esquerdas para levar uma ‘‘marcha’’ com quantidade variável de militantes a Brasília para entregar um pedido de investigação parlamentar e protesto contra o governo democraticamente eleito pela maioria do povo brasileiro, há menos de um ano.
Esforço que se dirigido para a formulação de proposições concretas e viáveis, capazes de melhorar e ampliar os programas do governo eleito seria muito bem-vindo, pois traria contribuições francas para a agenda de debates e decisões que o País clama. Não adiantam as velhas frases catalépticas, obtidas de digressão burocrática e simplista, diante das enormes complexidades do mundo de hoje, oriundo de quem ainda não se refez da perplexidade da queda do Muro de Berlim, passados dez anos.
Mesmo diante da constatação da inexistência de um projeto diferenciado da esquerda para dirigir o Brasil, sob as regras da democracia implantada após a derrota do regime militar, considero o movimento oposicionista a confirmação de que estamos no caminho certo, pois consolidamos o sistema representativo, com respeito às diferentes correntes de opinião existentes na sociedade.
A denominação fora de moda de ‘‘marcha’’ remete a tempos que desejamos superar como aquela similar promovida pelas elites paulistanas, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade e que foi instrumentalizada para o golpe militar de 1964. Nosso compromisso democrático está para a lucidez da Passeata dos 100 Mil que ocorreu no Rio de Janeiro, em 1968, como protesto pela morte de um estudante secundarista, demonstrando o repúdio da sociedade contra o arbítrio e a tortura. Rememoro o primeiro comício das Diretas, na Boca Maldita em Curitiba, com a participação de mais de 50 mil brasileiros ou aquele da Praça da Sé, em São Paulo, com mais de 1 milhão de cidadãos que gritavam a uma só voz: ‘‘Quero votar pra presidente.’’ Aqui houve a mudança requerida, pois estava na ordem do dia a redemocratização do Brasil, então dirigido por uma direita encastelada com o apoio dos militares.
Derrubada a ditadura, inaugura-se um novo tempo e nele vemos que as esquerdas sem proposta foram derrotadas, em eleições diretas e livres, por três vezes, sendo que Fernando Henrique foi vitorioso sobre Lula e Brizola, em duas ocasiões. Por isso a caravana colorida que rumou a Brasília, precipita e antecipa uma nova campanha presidencial. Enquanto nos preocupamos com a governabilidade, alguns preferem debater quem, nunca como e quanto. Diante da requisitada reforma política que o Congresso analisa, passa a existir uma ‘‘federação de partidos’’, propiciando à minoria, o acesso e sobrevivência entre os pequenos partidos de esquerda.
Sou um entusiasta do novo Brasil, que adotamos e construímos com a mobilização da sociedade por temas estruturais e agora reivindicando uma mudança profunda com a implantação das reformas política, tributária, do Judiciário, administrativa, previdenciária, urbana e agrária.
Reafirmo que procuramos amadurecer a democracia representativa, demonstrando maturidade e dando conta que o Brasil respeita a opinião diversa, sem tumultos ou agressões, da velha esquerda ou nova direita, que se unem episodicamente para tentar obter as benesses daquele regime patrimonialista que derrotamos nas eleições presidenciais.
Vamos unir nossos esforços para concretizar a sociedade fraterna, democrática, solidária e cristã, que todos desejamos com pontos de vista diferentes, mas com objetivos claros de igualdade de oportunidades e por isso, continuaremos a construir alternativas modernas para os brasileiros e brasileiras.
- LUIZ CARLOS HAULY é deputado federal pelo Paraná, 1º secretário nacional do PSDB e vice-líder do governo na Câmara

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