O Governo e a comunidade política vinculada conseguem operar a alquimia de afastar uma questão central e focar-se numa secundária. É o caso do escândalo dos cartões corporativos da administração Lula, que foi derivando para o fato de também o Governo de FHC adotar esse meio de pagamento e agora para o ''hediondo'' crime do vazamento do famigerado dossiê a respeito. Por trás de tudo está a eminência parda do Governo no poder, a irreverente ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Até o diretor-geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa, dá ênfase ao vazamento como meta de investigação, mas ao povo o que menos interessa é se isso é um delito. Ao contrário, quanto mais as coisas governamentais vazarem, tanto melhor, porque ficarão mais transparentes.
O brasileiros querem é saber a amplitude dos abusos com esses cartões. Os partidos DEM e PSDB ainda lembram que a coisa a investigar é esta e anunciam a cobrança de uma CPI pertinente, no Senado - o que será mais um gasto improdutivo de energia, em prejuízo da discussão de temas mais relevantes - mas de qualquer modo não estão fugindo do foco. Enquanto isso o Governo visa converter-se de culpado em vítima só porque informações sobre o tal dossiê vazaram. O ponto de visão passou a ser o vazamento e não a má utilização dos cartões corporativos e a autoria do dossiê, este apontando obviamente para a ministra ou para alguém dentro do sistema que queira desestabilizá-la. Porque ela não desfruta de muitas simpatias ali, embora cotada no PT para ser a denominada Opção B para concorrer à Presidência da República. (Óbvio que a Opção A é buscar uma mudança na legislação que permita a Lula candidatar-se em continuidade). O ''affaire'' do vazamento é o que está agora de plantão, ocupando as atenções do Governo e dos parlamentares. E como consequência os veículos de comunicação não falam outra coisa em seu noticiário político. Assim vai sendo adiada a discussão de projetos importantes que precisam ser votados. Como o ano é eleitoral essa lenga-lenga vai longe. Ninguém se ocupa de um projeto para diminuir a gastança pública, que é a razão dos desdobramentos que ora ocorrem.
Não obstante os vazamentos e grampos telefônicos serem considerados delitos, o que a população gostaria é que tudo fosse claro no âmbito governamental e que nada fosse ocultado. Se há vazamentos e interceptações telefônicas é porque algo é escondido do povo. Para a comunidade no poder tais fatos são crimes, justamente porque têm a ver com ela e suas irregularidades, mas o povo gostaria mesmo é que tudo vazasse aos ouvidos públicos, inclusive as conversas telefônicas entre governantes. O poder se cerca de leis autoprotetoras, não para garantir o exercício da governabilidade mas para blindar-se de coisas que a população não deve saber.

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