‘‘A pós-graduação, em 90% do Brasil, não vale nada, nem nas universidades federais grandes.’’ Palavras do professor e zoólogo da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Vanzolini, 76 anos, que não se nega a dar opiniões sobre o país: além de desqualificar grande parte da pós-graduação brasileira, acredita que o presidente Fernando Henrique Cardoso está mal assessorado em diversos setores, critica o Ministério da Educação e o uso do apoio financeiro dado à ciência pelo País.
Uma característica de Vanzolini, doutor em Biologia pela Universidade de Harvard e com trabalhos reconhecidos pela comunidade científica internacional, é a paixão por sua profissão. No próximo 7 de setembro, Dia da Independência, passará o feriado no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), pesquisando répteis, seu objeto de estudo há mais de 50 anos. Trabalhar em feriados e sábados é prática comum para Vanzolini que, apesar de aposentado há seis anos, cumpre expediente no Museu de segunda a sexta – com carga horária entre dez a doze horas diárias –, rodeado por livros, mapas e exemplares de répteis.
Filho de um professor da USP, o engenheiro Carlos Alberto Vanzolini, e bisneto de um participante do movimento anarquista no Brasil – na experiência realizada na colônia Cecília, no Paraná –, o zoólogo tem no currículo os fatos de ser um dos responsáveis pela criação da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), em 1959, e a transferência do Museu de Zoologia, que pertencia à administração executiva estadual, para a USP, em 1964.
Apesar de corresponder-se com os amigos por e-mail, o professor não vê com bons olhos a busca do conhecimento pela Internet. ‘‘Para mim, ela não dá acesso à informação nenhuma. Eu é que dou informação pra ela’’, afirma.
O grande público, que talvez não identifique Vanzolini pelo nome, reconhece pelo menos duas de suas quase 60 composições: o samba ‘‘Volta por cima’’ e a clássica ‘‘Ronda’’, canção que já recebeu diversas gravações e tornou-se uma referência paulistana.
Mas Vanzolini afirma que já deixou de compor e hoje só dedica-se à zoologia, a ponto de financiar várias de suas pesquisas, como a que vai realizar este mês: na segunda quinzena de setembro, irá a Venezuela, pesquisar cascáveis. Custo da empreitada: R$ 4 mil.
Folha O senhor concluiu alguma pesquisa recentemente?
Paulo Vanzolini: Terminei agora um trabalho grande que será publicado na Alemanha, sobre um lagarto da Amazônia. É uma coisa interessante porque, no ano de 1968, diversas populações desse lagarto mudaram as características físicas e é o segundo ou terceiro caso na literatura. Tem um grande cientista alemão, Harald Sioli, que estudou as águas doces na Amazônia, e vai fazer 90 anos. Como homenagem, vão fazer um livro, convidaram os amigos e me convidaram. Então aproveitei e mandei esse trabalho, que é importante, é amazônico, é um trabalho caro pra publicar aqui e os alemães são muito ricos...
No momento, o senhor está desenvolvendo qual pesquisa?
Vanzolini: Um trabalho em parceria com o Instituto Butantã, uma revisão das cascavéis brasileiras. Em setembro, vou à Venezuela, pesquisar alguns tipos e comparar com os encontrados em Roraima. Até hoje eu sou muito ligado ao Butantã. O Butantã passa por altos e baixos mas, no momento, está numa fase excepcionalmente boa.
O instituto teve uma grande influência na escolha da sua profissão.
Vanzolini: Eu ia lá aos dez anos. Eu sempre fui muito rebelde pra escola e meu pai, que era engenheiro, me subornava. Então, ele me prometeu que, se eu passasse bem no exame de admissão ao ginásio, me dava uma bicicleta. Eu peguei a bicicleta, fui ao Butant㠖 tinha dez anos de idade – e resolvi minha vida. Ia todos os dias ao Butantã, chegava da aula, pegava a bicicleta e ia. Naquele tempo, o Butantã era abaixo de qualquer crítica.
Quais são os instrumentos que o senhor utiliza em uma pesquisa?
Vanzolini: Cabeça. O resto, nada faz falta. Bom, precisa ter uma lupa, o computador veio trazer uma mão muito grande porque meu trabalho tem muita estatística e, com o computador, virou uma brincadeira. Ah, e tem as coleções. Mas coleções são uma coisa que não se compra, se faz.
Como é a sua relação com o computador?
Vanzolini: Computador eu uso pra fazer conta. A minha secretária escreve. Eu primeiro escrevo à mão, depois bato na máquina elétrica, daí dou pra secretária e ela põe no computador. Mas o trabalho leva seis, sete revisões até ficar pronto. A parte datilográfica é muito pesada e o computador facilita muito.
Qual sua opinião sobre a Internet? O senhor a utiliza?
Vanzolini: Acho Internet a coisa mais horrorosa que existe no mundo. Eu só gosto do e-mail, que é utilíssimo pra você falar com os colegas. Agora, as amolações que vem na Internet, vírus, anúncios de coisa que você não quer, pornografia, é uma droga, uma bagunça.
E o acesso à informação, que a Internet possibilita?
Vanzolini: Pra mim, ela não dá acesso à informação nenhuma. Eu é que dou informação pra ela. O site de jacarés da América do Sul foi feito a partir de um trabalho meu. Nós (pesquisadores) não precisamos de Internet. Nós somos profissionais. Isso é coisa pra menino. Profissional não tem essas bobagens. Aqui dentro desta sala eu tenho toda a informação que preciso. Eu escrevo um trabalho sobre qualquer assunto de herpetologia sul-americana sem sair dessa sala.
Mas podem haver sites com bons conteúdos, como esse sobre os jacarés, feitos a partir dos seus trabalhos.
Vanzolini: Pode ter, mas não compensa pra gente andar atrás disso. Nós temos uma biblioteca aqui no museu de primeiríssimo time, com um grupo de bibliotecárias excepcional e muitos recursos. É uma biblioteca de ponta, muito bem montada e muito rica, com mais de cem anos e muito bem organizada. 80 ou 90% do que eu preciso, peço para a biblioteca.
O governo brasileiro dá apoio suficiente à ciência?
Vanzolini: Dá demais. Apóia muita porcaria. Eu não conheço ninguém que deixe de fazer alguma coisa por falta de dinheiro. Para a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e para o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), o que falta é discernimento e qualidade, porque dinheiro eles têm demais.
A Fapesp patrocinou o sequenciamento genético da bactéria Xylella fastidiosa, que este ano foi capa da revista científica ‘‘Nature’’, fato inédito para pesquisadores brasileiros.
Vanzolini: Eles estão batendo um tambor absurdo nisso aí. Isso é uma coisa normal, não tem porque fazer esse carnaval todo.
Mas o fato de ter sido a capa da revista, não confere importância para a pesquisa brasileira no meio científico internacional?
Vanzolini: Não. Foi capa porque era um caso interessante, mas não tem essa transcendência toda. Acho muito mal baterem tambor. Sou contra.
E o que o senhor acha do ensino de pós-graduação no Brasil?
Vanzolini: Está num ponto baixo. A pós-graduação expandiu brutalmente, geometricamente, então baixou muito o nível. Naturalmente, com o tempo, vem a seleção natural e acaba acertando de novo. Mas, no momento, está em uma hora ruim.
O que deveria ser feito para melhorar esta situação?
Vanzolini: Temos que esperar, o tempo é que vai fazer.
O que o senhor acha da atuação do Ministério da Educação?
Vanzolini: O Ministério da Educação é uma vergonha, uma porcaria danada. Mas nem que fosse bom, não tinha o que fazer. São processos históricos. Primeira coisa: você não pode proibir ninguém de melhorar de vida. Se fosse por critério de qualidade, fechava-se todas as universidades, com exceção da USP. Agora, você vai dizer para um cara em Sergipe que não tire um título universitário pra ganhar um pouco mais? Isso seria uma estupidez. Então, o sistema universitário se expande em termos não científicos mas sociológicos, em termos de necessidade das pessoas ganharem dinheiro, subirem na vida, se estruturarem melhor. Mas naturalmente, depois que satura, sobrevivem os melhores. Há um refinamento. Nesta hora há uma tremenda expansão do que chamam pós-graduação e em 90% do Brasil não vale nada, nem nas universidades federais grandes e nós somos profissionais e sabemos que não vale mesmo. Mas isso é natural, é útil, é saudável que tenha muita gente, pois vão sobrar poucos bons que vão melhorar o nível.
Fora da USP, o senhor não destacaria nenhuma outra instituição universitária no país?
Vanzolini: Tem alguns campos que têm outras universidades boas. Para dar uma formação geral, a USP é melhor do que todas as outras juntas e não é porque eu ‘‘nasci’’ dentro dela – meu pai, Carlos Alberto Vanzolini, era professor da Poli (Escola Politécnica). Fora da USP, têm alguns departamentos notáveis, como o Departamento de Botânica da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), sem dúvida o melhor da América Latina. Tem um grupo de ecologia em Brasília, que é excelente. Mas quando você pensa em uma formação geral, apesar de muitos picaretas que têm lá, a melhor ainda é a USP.
Entre 96 e 97, o senhor participou do documentário ‘‘No rio das Amazonas’’, filmado a partir de uma viagem de barco por municípios localizados entre Belém e Manaus. O que achou da experiência cinematográfica?
Vanzolini: Não foi novidade nenhuma, eu trabalhei em televisão por muito tempo, na Record, nos anos 60. O pai do Ricardo Dias (diretor do documentário) era meu amigo e quando ele (Ricardo) trabalhava no programa ‘‘Globo Ciência’’, apareceu aqui no museu e ficamos amigos. Um dia eu disse pra ele: o jeito que o pessoal encara a Amazônia é errado. Encaram como um emblema, um mito. A Amazônia mesmo é o caboclo de beira de rio, cujo pai veio do Ceará e hoje ele rema e pesca como um índio. E fizemos este filme, foi muito bom. Quem levou o Ricardo nos lugares fui eu. Eu percorri 11 mil quilômetros de rio na Amazônia, nos anos 60, com um barco que tive. Tem uma coisa impressionante na Amazônia, que é uma herança nordestina: a paixão pela instrução. O zoólogo tem uma entrada muito boa com o povo da Amazônia, por ter conhecimento zoológico.
O senhor sempre procurou ser discreto. Essa característica foi cultivada mesmo no seu lado de compositor e na convivência com o meio musical?
Vanzolini: Eu acho que é certo ser assim. Nesse negócio de ser compositor eu entrei sem querer e é muito complicado pra mim. Não gosto de ser compositor e não me considero compositor. Por outro lado, tenho amigos nesse meio, para quem eu sou importante e eles são importantes pra mim. Mas eu não componho mais, já ‘‘fechei’’ há vários anos. Minha última composição feita foi há quatro, cinco anos, chamada ‘‘Quando eu for, eu vou sem pena’’, mas não foi gravada. Eu detesto gravação. Eu nasci pra ser polícia: detesto bandido e se você quer um bandido, é uma gravadora.
Inevitável falar de ‘‘Ronda’’, seu grande clássico, composto aos 21 anos. A letra (que descreve um crime na avenida São João, centro de São Paulo) teve inspiração em algum fato real diretamente?
Vanzolini: Não. Eu era soldado raso e fazia a ronda duas vezes por semana no baixo meretrício de São Paulo (região central) e ficava impressionado ao ver aquelas mulheres nos bares, com cara de quem estava procurando alguém. Chegavam na porta do bar, olhavam e iam embora. Aí, imaginei a história.
O que o senhor acha da identificação feita pelo público e pela crítica entre esta música e a cidade de São Paulo?
Vanzolini: É a coisa mais engraçada do mundo acharem que ‘‘Ronda’’ é o hino de São Paulo. É uma cena de meretrício! O que esse pessoal tem na cabeça? Eu não sei. É até hoje a música mais pedida na noite, no Brasil inteiro. Eu tenho uma amiga que canta na noite e ela recebe alguns pedidos de música em guardanapos – e o que tem de ‘‘Ronda’’ escrita com H (‘‘Honda’’, escrito como a marca de automóveis japonesa)... Fala-se que a educação no Brasil está melhorando – está, mas ainda falta um pouco. ‘‘Ronda‘‘com H é fabuloso.
Quem melhor gravou ‘‘Ronda’’?
Vanzolini: ‘‘Ronda’’ foi muito bem gravada por uma porção de gente. Cláudia Moreno, Márcia, Ana Bernardo. A Márcia é uma cantora que não tem outra igual, porque não só ela tem uma grande voz, uma grande interpretação, mas tem técnica.
Maria Bethânia também gravou esta música. O senhor gosta da interpretação dela?
Vanzolini: Não, a Bethânia não sabe cantar, ela recita. Esses baianos são os reis do marketing, mas de qualidade são muito ruins. Todos eles, não escapa um.
Nem Caetano Veloso e Gilberto Gil?
Vanzolini: Principalmente esses dois. Esses são os reis do marketing, não têm nada para mostrar e fazem uma ‘‘espuma’’ danada. Como produção artística nenhum dos dois têm nada para mostrar. Se você quer falar em baiano, fala em Dorival Caymmi. Esse é um santo, uma figurona.
Na MPB, hoje, o senhor gosta de alguém?
Vanzolini: Santo Deus. Um país que tem Chico Buarque e Paulinho da Viola, precisa mais?
Alguém da nova geração? Porque Chico Buarque e Paulinho da Viola já foram novos também.
Vanzolini: Alguém para renovar eu estou esperando.
Quanto às eleições municipais, o senhor vai votar em quem para prefeitura de São Paulo?
Vanzolini: Vou votar na Luiza (Erundina, candidata pelo PSB). É uma mulher direita. A Marta (Suplicy, candidata pelo PT) também é uma mulher direita.
Como o senhor vê São Paulo, hoje?
Vanzolini: Administrar uma cidade como São Paulo não é brincadeira. Você bota um incompetente administrando, vê o que acontece. Eu tenho fé na Luiza.
O que o senhor acha do governo Fernando Henrique?
Vanzolini: Olha, o Fernando Henrique Cardoso é um sujeito que eu conheço bem. É um tipo extremamente direito e inteligente. Mas nunca vi um cara tão mal cercado. O ministério dele é uma das piores porcarias que eu já vi na minha vida. A parte de Ciência e Tecnologia e Meio Ambiente, que são as duas partes que eu mexo, estão muito ruins. Agora, a parte econômica, acho que está boa porque, na realidade, não tem tido inflação que se possa ver – eu fui do tempo de 40% ao mês. Mas na parte científica e de conservação da natureza, é muito ruim.
A música e a ciência sempre caminharam juntas na sua vida. Que importância cada uma teve para o senhor?
Vanzolini: A música nunca teve importância na minha vida, a não ser pela minha biblioteca, que eu comprei com dinheiro de ‘‘Volta por cima’’.
Entre as várias pesquisas feitas ao longo de décadas, existe alguma descoberta da qual o senhor se orgulha?
Vanzolini: Orgulho eu não tenho porque pesquisa não é coisa para se orgulhar, é para se fazer. Mas eu tenho uma que deu muito certo, a Teoria de Refúgios, que fiz nos anos 70 e ainda é uma teoria válida e relativamente importante, sobre a formação das espécies em regiões tropicais. Quando o clima seca, a floresta diminui e fica reduzida a ‘‘ilhas’’ de floresta, cercada de cerrados e caatinga e nessas ilhas diferenciam-se espécies e, quando volta a floresta, essas espécies já estão diferenciadas.

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