Vila Velha, o segundo mais importante pólo turístico paranaense, é vítima de um voraz processo de degradação ambiental e geológica, resultado da soma da ineficiência e o descaso dos órgãos públicos que administram a área e o vandalismo praticado pelos visitantes. A consequência prática é a queda constante no número de visitantes, apesar de o parque estar a apenas 80 quilômetros de Curitiba e 20 quilômetros de Ponta Grossa, duas das maiores cidades do Estado.
No ano passado, somente 138,6 mil pessoas pagaram ingresso. Esse número é 33% inferior ao que a reserva recebia há cinco anos e um terço da média anual durante a década de 80. As Cataratas do Iguaçu, principal atração turística do Estado, contabilizaram 770 mil visitantes em 99.
As trilhas que levam às formações areníticas com até 300 milhões de anos sofrem um incontrolável processo de erosão. Em algumas das rochas, o problema é tão grave que o acesso do visitante é limitado, ou até impedido, por voçorocas com quase dois metros de profundidade. Esse é o caso da ‘‘taça’’, escultura natural em formato de cálice, a mais conhecida do público e que se tornou símbolo do Parque Estadual de Vila Velha.
A erosão, que também atinge outras áreas, é provocada por dois fatores: a constante passagem de pessoas pelas trilhas e as características do solo, de formação arenosa. A corrosão é maior em volta da taça exatamente porque esse é o ponto mais procurado pelos turistas, para fotografias. Mas rotas que levam a atrações secundárias também estão intransitáveis.
O fogo é um aliado da erosão na degração do parque. Sucessivos incêndios, geralmente provocados pelas queimadas sazonais em propriedades vizinhas, ajudam a destruir os remanescentes da flora original da região dos Campos Gerais – grandes áreas de vegetação baixa entremeadas com capões, em que se sobressaíam árvores de grande porte, como pinheiro, cedro e imbuia. Só neste ano, ocorreram dois grandes incêndios. No último, no início de junho, foram destruídos 491 hectares de vegetação (15,62% da área total da reserva).
Os visitantes contribuem para a deterioração. Sobem nos arenitos, o que é proibido. Com pedaços de madeira, pedra e até facas, eles já deixaram suas marcas na maioria das principais rochas. Geralmente inscrevem nos arenitos seus nomes e a data da visita ou deixam mensagens de amor. Outros, mais modernos, lançaram mão do spray. Nos últimos dois meses, já foram encontradas pichações em pelo menos dois locais – um deles a famosa ‘‘taça’’.
‘‘São inscrições rupestres contemporâneas’’, ironiza o ambientalista curitibano José Álvaro Carneiro, presidente da ONG Liga Ambiental e considerado um dos principais defensores de Vila Velha. Para ele, o vandalismo é favorecido pela falta de fiscalização e monitoramento dos visitantes.
Não há qualquer registro na entrada do parque, vigilância de guardas na área de visitação e nem o acompanhamento do turista por guias. Também faltam placas indicativas das atrações – à exceção das principais ‘‘esculturas’’ – e de informações sobre flora, fauna e geologia. Sem orientação e controle, os turistas têm livre acesso a todas as áreas da reserva.
Se a situação não começar a ser resolvida até janeiro, pico da temporada de visitação, Carneiro ameaça recorrer à Justiça para que o parque seja fechado. ‘‘A utilização está sendo predatória e o fechamento pode ser a única saída até que o Estado solucione o festival de contradições em que se transformou Vila Velha’’, diz o ambientalista.

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