Vamos trocar de hino? - J. Roberto Whitaker Penteado
Vamos trocar de hino?
J. Roberto Whitaker PenteadoChega-me, por e-mail do Ceará, esta interessante proposta do professor José Lemos Monteiro para ser incluída entre as comemorações do ano 2000 (que, segundo o professor, rima com Brasil). É hora de mudar o Hino Nacional. Argumenta JLM que o momento histórico que viveremos no ano 2000 poderá ser o início de uma mudança de mentalidade de nosso povo. E que gesto mais significativo para atingir esse objetivo, do que mudar o Hino Nacional Brasileiro? Porque ele não representa bem a índole e os anseios de nosso povo.
Continua o professor: a música causa-nos vergonha. Além de uma de suas frases musicais lembrar muito o Hino Nacional da França (sic), ela constitui um acintoso plágio de uma sonata de Paganini, composta cerca de doze anos antes, conforme o museólogo cearense Cristiano Câmara. (Essa pretendo verificar).
Considerando a letra, o Hino Nacional Brasileiro não resiste à crítica estilística mais superficial. Para tocar em alguns aspectos elementares, por exemplo, a seleção vocabular. O preciosismo do autor inseriu no texto inúmeras palavras cujos significados são desconhecidos da maioria dos brasileiros, mesmo os que têm instrução superior (lábaro, garrida, impávido, flâmula, fúlgidos etc.). Nos versos iniciais ocorre logo um cacófato (heróico o brado = /ku obradu/), a que ainda se associa o qualificativo retumbante, evocador de imagens desagradáveis, pois brado, no sintagma formado com o dito cacófato, gera uma ambiguidade pouco decente. Por outro lado, continua, a estrutura sintática do texto dificulta a interpretação, em virtude das constantes inversões que contrariam a ordem canônica do português brasileiro. Logo nos versos iniciais (Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante), sentimos dificuldade quanto à análise do sujeito. (No caso, as margens)
Mas é no aspecto ideológico que o texto parece mais vulnerável, tornando-se prejudicial à consolidação dos valores e aspirações do povo brasileiro e à edificação do trabalho honesto como forma de possibilitar o desenvolvimento sócio-econômico. Construções do tipo deitado eternamente em berço esplêndido incitam à inércia. Explica o professor: uma das leituras desse trecho, que já penetrou em nosso inconsciente coletivo, é: somos um país gigantesco, que se dá o luxo de continuar estático em sua riqueza e ignora o estado de pobreza de seu povo... Nosso país é rico, por sua própria natureza, e portanto não precisamos fazer nada...
O hino plagiaria versos românticos que funcionam como mentiras que parecem verdades. Qual o intuito das belas mentiras do tipo nossos bosques têm mais vida? Talvez camuflar problemas crônicos como a seca do Nordeste, impedindo que se lhes dê a solução adequada. Se não convém expressar a verdade (nossos campos têm mais morte), pelo menos não se deveria incutir a mentira como base de nosso patriotismo...
Até aqui, já fui convencido da urgência de se mudar o hino. Mas JLM tem mais munição: Quando a questão é econômica, o governo não tem vacilado em mudar o nome de nossa moeda. Mas esse problema aqui é mais sério: uma questão de identificação com a pátria, com o nosso povo, com o que pretendemos construir e amar. E não podemos amar o símbolo que mais nos representaria. Porque é uma música que nos envergonha por ser plágio, porque é um texto que não compreendemos por ser confuso e estilisticamente vazio, que não somos capazes de decorar, por esses motivos, e ainda por ser demasiado longo... Costuma-se criticar os brasileiros que, em ocasiões solenes, tentam cantar o hino e somente conseguem, pateticamente, abrir e fechar a boca. Mas a culpa não é de quem não sabe cantar. Eu, como a maioria dos brasileiros, nem quando era criança, jamais fui capaz de gravar uma letra tão rebarbativa e longa.
Por tudo isso, finaliza o professor, não seria o caso de aproveitar o momento histórico dos 500 anos do descobrimento e presentear o povo brasileiro com um novo hino, mais autêntico e mais expressivo? Ainda há tempo para se fazer uma bela campanha associada a um concurso de âmbito nacional, tanto para a letra quanto para a música que, com certeza, serão bem mais criativas e belas. Tudo isso dentro do espírito de uma nova era, a do ano 2000.
Só que eu acho que não precisa de concurso. Já temos, há décadas, um hino novo e perfeitamente adequado. Chama-se Aquarela do Brasil e foi composto por Ary Barroso.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é professor e dirigente universitário no Rio de Janeiro





