Certa madrugada, por volta das 5 horas, acordei assustada, com a nítida sensação de que Sandy e Júnior, a dupla musical adolescente, estava no meu quarto. E pior: convidavam-me a pular! ‘‘Vamos pular, vamos pular, vamos pular!’’ era tudo o que eu ouvia (com todas as letras e acordes correspondentes) e foi mais do que suficiente para que eu tomasse uma atitude, a de pular da cama. Desconsoladamente, esperei, até às 6 e pouco, que o baile do clube finalmente terminasse.
‘‘Isso deve ser eventual’’, pensei comigo. ‘‘Não é possível que ninguém reclame dessa tortura sonora!’’, emendei, espantada com a possibilidade. Contudo, outros sons, além daqueles de bailes esporádicos, estavam a caminho, para me surpreender ainda mais. A música dos barzinhos, de que a cidade é pródiga, berrantemente espalhada pelos points e arredores. O ‘‘vai rolar a festa, vai rolar...’’ e outros sucessos da atual parada musical, que teimavam em entrar pela janela do meu apartamento, de madrugada - sempre de madrugada -, em surtos rápidos, pois provinham de rádios de carros, que, felizmente, passavam. Só que me faziam questionar, em meio ao sono bruscamente interrompido: - Onde estou? Ah, em Londrina!
Sou de São Paulo e cheguei aqui há 6 meses. Por conta dessa origem, os leitores podem questionar se não estaria (ou não deveria estar) acostumada com o barulho. Sim e não seria uma resposta próxima da realidade. Sim porque à grandeza física e populacional da capital paulistana corresponde um ‘‘rumor’’ que não cessa, apenas diminui de intensidade no fim de noite e de madrugada, dando-nos a impressão de um bem-vindo silêncio. Não porque o respeito ao silêncio possível, aquele que depende diretamente da atitude dos cidadãos, é ferozmente exigido. Entre outras razões, porque se não houver respeito pelo direito ao sossego do outro, vamos acabar chegando à conclusão de que se tornar uma grande cidade não vale muito a pena!
Dizem que em um país europeu, de comprovada civilidade nórdica, não é permitido nem dar descarga, depois de determinado horário, para não atrapalhar o vizinho. É claro que, para nós, uma autêntica civilização dos trópicos, isso seria um total exagero. Teríamos de cunhar um aviso, a ser afixado na porta do banheiro: ‘‘Barrigas, a partir das 22 horas, contenham-se!’’. Temos mais com o que nos preocupar, sem dúvida! Mas legislação e normas de convivência social estão aí, para nos lembrar que vivemos em sociedade e para garantir que sobrevivamos à sociedade que nós mesmos criamos.
Se existem locais destinados ao lazer, a que todos temos direito, existem também normas de atuação desses locais, como a exigência de tratamento acústico apropriado, por exemplo, para evitar que o som vaze, perturbando o direito ao sossego, ao silêncio e ao descanso noturno também assegurado aos demais. É simples assim, e difícil assim, porque tudo se resume ao indispensável respeito pelo outro, de que o mundo hoje em dia, seja civilizado ou nem tanto, anda tão carente.
Londrina é uma cidade encantadora. Jovial e dinâmica, com extensas áreas verdes e vastos horizontes, já tem muito a oferecer e um promissor potencial a ser desenvolvido. Só depende, para isso, de seus moradores, trabalhadores incansáveis. Que os donos de clubes e casas noturnas e os motoristas, ansiosos por compartilhar o som de seus rádios, lembrem-se disso, pois uma cidade assim operosa merece, no mínimo, dormir bem!
ANA MARGARIDA SETTI ROSA é jornalista em Londrina

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