VAMOS PERDER? 'Fatalmente' os juros da poupança serão reduzidos
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terça-feira, 28 de abril de 2009
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
A poupança pode passar por mudanças no cálculo dos rendimentos. O que incentiva as alterações, que estão sendo estudadas pelo governo federal, é a queda da taxa de juro básico da economia, a Selic - que atualmente é de 11,25% ao ano e cujo novo índice será divulgado hoje.
A redução pode resultar em uma migração em massa de grandes investidores para a poupança, pois os juros da caderneta ficarão mais atrativos. É exatamente isso que o governo quer evitar. As alterações seriam necessárias para proteger o pequeno investidor, garante.
Atualmente, a poupança, cujo rendimento é de 7,5% ao ano, não lidera o ranking de investimentos no país, perdendo para a Bovespa, fundos DI e de Renda Fixa. Para discutir o assunto, a reportagem da FOLHA conversou com Luiz Afonso Cerqueira, membro do Conselho Consultivo do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (IBEF) e professor convidado da PUCPR.
As mudanças previstas para a poupança realmente vão proteger o pequeno investidor?
Acho que não. É um certo exagero usar essa palavra. Não é que vai ficar bom para os pequenos, vai ficar ''menos bom'' para os grandes. O que vai acontecer é que fatalmente vai diminuir o rendimento da poupança. É muito difícil escapar dessa possibilidade seja pela redução da parte fixa dos juros ou da TR - que complementa o rendimento da poupança. Uma das duas coisas possivelmente vai acontecer.
Isso é bom ou ruim?
Não é exatamente ruim. Estamos mudando o patamar de taxas de juros no Brasil. Somos campeões mundiais de juros altos. No entanto, com a queda da inflação e com a recessão internacional, vamos ter que escolher se continuamos como campeões dos juros altos ou se baixamos as taxas consistentemente. Se o caminho seguido for o de baixar os juros, o rendimento de todas as aplicações cairá. Possivelmente a taxa de juro básico da economia, a Selic, de 11,25%, reduzirá até o final do ano.
É justamente a queda da taxa Selic que vai fazer o investidor migrar para a poupança...
Exatamente. Hoje você tem vários tipos de investimento, mas no momento de resgatar o dinheiro tem-se o imposto de renda (IR) e a rentabilidade diminui. Na poupança não tem IR. A poupança hoje está rendendo 7,5% ao ano e a taxa de juros está em 11,25%. Se a taxa de juros da Selic chegar a 8,75% já vai interferir diretamente na poupança, pois o IR vai fazer com esse 8,75% fique ainda menor.
Dessa forma, a poupança vai ficar atrativa também para os grandes investidores?
Isso. Eles tendem a migrar para a poupança que não tem IR e a rentabilidade é líquida. Só que esse tipo de investidor não é bom para a poupança pois ele se mexe muito em razão das mudanças no panorama da economia. E é isso que o governo quer evitar. Ele quer manter a poupança estável, porque ela financia a compra da casa própria.
E se reduzir o investimento na poupança o sistema habitacional não sai perdendo?
Acho que não. Só mexeria no financiamento imobiliário se o governo resolvesse acabar com a TR - que é uma taxa referencial e que está presente em cerca de R$ 20 bilhões de contratos de financiamentos imobiliários. O governo tem várias alternativas para examinar.
Quais alternativas são essas?
Pode-se mudar a forma de cálculo da TR para que ela fique próxima do zero ou extinguir a TR, o que é praticamente inviável. Também existe a possibilidade de reduzir a parte fixa do juro, o que politicamente seria muito complicado. Outra coisa que pode acontecer é mexer com a isenção do IR sobre o rendimento das cadernetas ou oferecer juros menores para grandes depositantes. E, por fim, pode-se limitar o montante dos depósitos de grandes investidores.
Na sua opinião, qual das alternativas é a mais viável?
Fatalmente, acho que os juros serão reduzidos.
O senhor acha que essas mudanças são realmente importantes? O momento é propício?
Esse é o momento do ponto de vista técnico, pois os juros estão chegando num patamar muito próximo da poupança. No entanto, do ponto de vista político talvez não seja o momento adequado, pois o ano que vem é eleitoral e qualquer coisa que seja feita sem cuidado vai ser muito explorado pela oposição.
Essas mudanças podem ser comparadas com as que ocorreram na época do governo Fernando Collor?
Acho que não tem nada a ver. Temos de saber separar as coisas. Uma coisa é a parte técnica, a outra é a política.


