Vamos para cima dos fundos de vale?
"Estudos no Brasil e no exterior já comprovaram que aumentar a capacidade viária não resolve o problema de congestionamentos"
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de novembro de 2024
"Estudos no Brasil e no exterior já comprovaram que aumentar a capacidade viária não resolve o problema de congestionamentos"
Mário Germiniano 
Existem visões diferentes sobre o que é uma cidade para todos. Com todo respeito às manifestações favoráveis às transposições sobre o Fundo de Vale do Córrego Tucanos, é importante lembrar que, em tempos passados, derrubar matas e cortar árvores era, para muitos, um símbolo de progresso e desenvolvimento.
Hoje, sabemos que esse modelo de crescimento econômico está ultrapassado e tem gerado sérios problemas urbanos, como enchentes devastadoras – a tragédia no Rio Grande do Sul é um exemplo –, calor e frio intensos fora de época, além de dias de sofrimento e desespero para muitas cidades e seus habitantes.
Este é o momento de repensar o futuro que queremos para todos os londrinenses. A importância das árvores e das nascentes de água em áreas urbanas é inquestionável. As áreas verdes contribuem para um microclima mais ameno, ajudam a absorver gases do efeito estufa, permitem a infiltração da água da chuva no solo, reduzem os impactos das ondas de calor e são essenciais para a saúde – especialmente a mental.
Infringir as legislações municipais e federais, cometendo crime ambiental, não pode ser o caminho hoje em direção ao futuro de Londrina.
É realmente necessário agir assim? Destruir o Fundo de Vale do Córrego Tucanos em nome do desenvolvimento urbano? Derrubar árvores, aterrar nascentes, contribuir para o desequilíbrio ambiental, priorizar veículos em detrimento das pessoas, concretar áreas de preservação permanente? Esse é o futuro que queremos? E mais, prejudicar diretamente centenas de famílias sem debate adequado e ampliar vias que servem apenas ao trânsito local?
Além disso, permitir essa ação pode abrir um precedente perigoso na proteção dos fundos de vale da cidade.
Vamos continuar com as transposições e mais carros hoje, e ainda mais problemas amanhã?
Que tristeza, quanta incoerência! Londrina é uma das poucas cidades no Brasil com mais de 80 fundos de vale em sua área urbana, com centenas de nascentes. A preservação desses espaços foi um marco importante do urbanista Prestes Maia, que deu a Londrina uma condição de sustentabilidade respeitada e admirada até hoje.
Estudos no Brasil e no exterior já comprovaram que aumentar a capacidade viária não resolve o problema de congestionamentos; na verdade, induz a demanda por mais veículos.
É fácil de compreender: abriu rua, fez avenida, mais carros e veículos vão passar.
A solução está em priorizar o transporte público de qualidade, criar ciclovias e incentivar formas de mobilidade ativa, além de reduzir a dependência do carro particular.
As transposições do Fundo de Vale do Córrego Tucanos, propostas pela Prefeitura de Londrina no projeto de lei nº 63/2023, em discussão na Câmara de Vereadores, são ideias antigas que circulam há décadas nos bastidores dos órgãos públicos. Essas diretrizes foram incluídas no Plano de Mobilidade Urbana de Londrina sem considerar a atual realidade climática e não apresentam estudos socioeconômicos e ambientais sobre os impactos das obras para moradores e comerciantes da região.
Queremos servir de exemplo para o Brasil e o mundo, respeitando as legislações ambientais?
A decisão está nas mãos dos vereadores e vereadoras da Câmara Municipal de Londrina. Uma emenda da vereadora Professora Sônia Gimenez propõe a exclusão das obras de transposição do Fundo de Vale do Córrego Tucanos.
Defendemos a implantação do Parque Linear do Fundo de Vale do Córrego Tucanos para toda a comunidade da região sul. Pedimos diálogo e a retirada das propostas de abertura de avenidas em bairros residenciais e das transposições no Fundo de Vale do Córrego Tucanos.
Queremos um futuro sustentável. Dizemos não às obras de transposição.
Mário Germiniano, diretor da Associação de Moradores do Vale dos Tucanos


