Vamos estimular a gastança!
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quinta-feira, 08 de maio de 1997
Walmor Maccarini 
Se o brasileiro quer comprar uma geladeira nova, um televisor, um micro-ondas ou um aparelho de som, enfim ter acesso ao bem-estar do mundo contemporâneo, encontra a resistência do Governo, que parece querer vê-lo na miséria e no desconforto. Toda vez que aumenta o consumo de algum bem o Governo vem com medidas punitivas. Como faz agora, aumentando o Imposto sobre Operações Financeiras de 6% para 15%, para desestimular o consumo. Alguns economistas acham que o que o Governo quer mesmo é aumentar a arrecadação. Se for isso, maior a burrice, porque com a queda das vendas cai também a receita tributária.
Mas o que impera, mesmo, é essa mentalidade atrasada de que o consumo é coisa desastrosa. Já a quebradeira de empresas, isto pode! O Governo demonstra não se preocupar com isto!
Estes nossos governantes, desde os tempos pós JK, viajam pelo mundo desenvolvido mas não aprendem. Não foi a contenção do consumo, mas exatamente o contrário, que projetou para a frente os Estados Unidos, Canadá, Europa, os Tigres Asiáticos. O Governo FHC apaixonou-se pela causa da contenção da inflação, e obteve êxito, mas a tal ponto está obcecado que não percebeu que os juros altos, não contidos, estão levando de roldão as empresas e os empregos.
Conter o consumo em país que mal começou a consumir! Um absurdo. Em verdade o que se tem no Brasil hoje é o denominado consumidor orgânico. Seu poder de compra aumentou e graças a Deus que nisto os governantes não se intrometeram. Aliás, está aí, no setor de alimentos, a demonstração de que o aumento do consumo não levou ao aumento de preços; pelo contrário, há itens que até baixaram.
Interessante que o Governo não faz sacrifícios, mas o exige da população, punindo-a com impostos e tomando medidas que impedem que o cidadão melhore seu padrão de vida. Quer sempre aumentar a arrecadação mas não diminui os custos da máquina governamental. Não se conhece uma única medida para contenção de seus gastos.
O Governo quer que a população diminua o consumo, como se ele fosse tão grande assim, e bom que fosse, mas o que se tem que estimular no Brasil é justamente a gastança, porque mobiliza as fontes de produção de matérias primas, as fábricas, o comércio, os serviços; aumenta a oferta de empregos, e com emprego o cidadão compra mais, move o comércio, que vendendo mais aciona as indústrias, que de sua vez alavancam os fornecedores, o Governo passa a arrecadar mais impostos e com mais impostos realiza mais obras, com isto melhorando a vida dos cidadãos, empregando gente e aumentando o contingente de consumidores, todos ficam ricos, alegres e felizes e assim passam a produzir mais e melhor, cai o custo social com assistência e segurança e o Governo economiza, e então pode baixar impostos e tarifas, deixando mais dinheiro no meio circulante. É a reação em cadeia, e o resultado é a explosão desenvolvimentista.
Mas os cérebros do Planalto querem conter o consumo. Para quebrar mais empresas, para aumentar o desemprego, para que aquela reação em cadeia opere em sentido contrário.
E também não podemos afirmar com tanto ufanismo que vivemos uma inflação baixa, porque isto não é plenamente verdadeiro, já que temos diversas inflações: a quase zero para o consumidor orgânico, mas o empresário e o usuário de cheque especial e o que extrapola os prazos do cartão de crédito, aquele que desconta duplicatas e faz seus papagaios, paga juros de vão de 4% a 14%, e até mais. Todos os que têm uma empresa estão endividados em bancos, não escapa ninguém. Para não falar nos que caem no buraco negro dos agiotas. Nos tempos da inflação de 80% os bens patrimoniais, assim como os estoques, subiam na mesma proporção, então a inflação real era, na verdade, de praticamente zero.
O brasileiro não é um gastador inveterado, apesar de alguns excessos na euforia do lançamento do Plano Real. Ele compra a geladeira que lhe falta, o fogão novo, o micro-ondas, a máquina de lavar, a tv colorida, o sonzinho para escutar Leandro e Leonardo e Chitãozinho e Xororó.
Produzir e consumir, este é o segredo, porque os bens terrenos são dádivas de Deus, e Deus é inimigo da pobreza. Não há maior mal do que poupar e economizar se o que prevalece aí é o medo de gastar, porque isto atrai mais pobreza. Poupança demais é mesquinhez.
Os arautos de Brasília afundam qualquer ideal de crescimento neste abençoado país!
Um mestre espiritual de preciosos ensinamentos deixou escrito: A produção é ativada pelo consumo. Reduzindo-se o consumo na tentativa de melhorar a situação financeira, acaba-se prejudicando também a produção. Com a redução da produção demite-se empregados e isto acarreta o enfraquecimento do poder aquisitivo do povo. Consequentemente os produtos fabricados não saem, e acumulam-se os estoques. E assim forma-se o círculo vicioso da má situação financeira.
Não se conhece um país rico que tenha alguma vez pregado a contenção do consumo. Um país é rico quando seu povo trabalha com entusiasmo, partilhando; quando não desperdiça (e consumir não significa desperdiçar); quando direciona eficazmente sua economia; quando consome. Tudo o que se produz de bom é para consumir e tudo o que se consome resulta em mais produção.
Se não houver ganância e tudo aconteça com harmonia haverá abundância para todos e estará aí se manifestando a mais elevada expressão da vida!


