Walmor Macarini
Dezembro é um mês em que abrimos o campo para a entrada das inspirações. Ficamos menos agressivos e mais dóceis em dezembro. Porque permitimos que se manifestem os bons sentimentos que carregamos conosco, mas que por medida de ‘‘economia’’ temos utilizado pouco. Algo tão valioso, mofando, desperdiçando-se. Em dezembro, pela tradição, fazemos nossa lista dos presentes que vamos confeccionar ou comprar, para dá-los a alguém. Por que depois disto, só nos aniversários, nos casamentos, na graduação de alguém, na conquista do campeonato, coisas do gênero. Não somos muito habituados a dar presentes a qualquer tempo, quando chegue uma ocasião.
Mas se dezembro é o mês, bom que haja um mês. É nesta época que mais nos lembramos dos carentes. E bom que ao menos nos lembremos deles, um mês ao ano que seja. Então, vamos tomar o cuidado de, a estes principalmente, não doarmos apenas aquelas coisas velhas que já não nos servem, mas também coisas novas. Não vamos apenas ‘‘limpar’’ armários e guarda-roupas e transferir essas velharias para os carentes, só pelo fato de que para eles, pelas condições em que se encontram, tudo serve.
Óbvio que não sejamos tão radicais a ponto de jogar no lixo algo em desuso que possa servir a alguém. Mas tomemos cuidado em não magoar pessoas, sobretudo os pobres. A maioria não se molesta, antes agradece, mas importa muito a forma como o fazemos. Geralmente, pessoas necessitadas nos pedem, então podemos dar-lhe com mais segurança aquilo que já não queremos mais usar. Mas – e isto não podemos deixar de fazer – se vamos doar alguma coisa usada, que a doemos limpa e consertada, se for algo que apresente defeito. Nós não compraríamos na loja, para nós próprios, um aparelho novo sabidamente com defeito, então não vamos presentear alguém com uma roupa rasgada ou suja, sem botões, com zíper estragado, ou um eletrodoméstico que não funcione.
Primeiro vamos mandar consertar tudo como se fosse para nosso próprio uso, e aí sim doá-los. Já escrevi vezes anteriores que, se doamos alguma coisa com defeito obrigamos a pessoa a gastar para consertar, e assim, ao tempo em que a beneficiamos também a oneramos. Não podemos baixar o padrão... Vamos ao menos ser elegantes e presentear com estilo. Pobres e carentes (há carentes que não são pobres e há pobres que não são carentes) também têm bom gosto e aprecia ganhar uma calça com etiqueta pendurada, um sapato com cheiro de couro novo.
São procedimentos que fazem a diferença. É muito agradável abrir uma caixa com fita enlaçada, e carente aprecia isto muito mais, até pela falta de costume... Presente ter que ter fita enlaçada...
E se compramos o novo, acionamos a economia, porque mobilizamos a fábrica, acionamos o comércio, incrementamos o consumismo, alimentamos o emprego. Já escrevi que não precisamos vestir e calçar o batalhão inteiro, mas se cada qual presentear um, sobrará presente, porque é maior a quantidade dos que podem doar do que os que precisam receber. E graças a Deus que, a maioria de nós, está não na condição de pedir, mas de poder dar.
Só não devemos usar os mais humildes como depósitos de nossas tranqueiras. E também não sejamos radicais negando algo que alguém nos pede e diz que o aceita da forma que está. Cada caso um caso.
Temos escrito que cada qual identifique a pessoas ou pessoas a quem deseje presentear, mas que o faça não apenas porque isto pareça obrigação de fim-de-ano, mas porque lhe agrada fazê-lo; não porque venha a agradar a alguém, mas sobretudo porque agrada a nós próprios.
Mas, neste final de 1999, vamos também nos livrar de nossas velharias mentais, jogando fora ressentimentos do ano que finda e dos anteriores. Bom é poder perdoar aqueles que nos magoaram, mas se nosso ego ainda não permitir isto, vamos ao menos fazer um esforço nesse sentido. Não basta dizer ‘‘eu já esqueci’’ se isto não signifique, de fato, haver perdoado, porque só estaremos jogando a sujeira em baixo do tapete... Esquecer, porque se apaga da memória, não eliminará esse resíduo de nosso inconsciente, e ele lá ficará, fermentando-se e transformando-se em colônia fértil para as angústias. Que chegam inexplicáveis, não se sabe de onde, mas é lá onde elas estão. Uma boa prática é retroceder mentalmente ao momento em que agredimos, magoamos ou tenhamos desejado mal a alguém, reconhecer isto como fato real e fazendo que tudo volte ao nada, diluindo-se no éter e transformando-se em substância luminosa.
Pedir desculpas a quem ferimos e, sobretudo, perdoar a nós próprios pelo que, por preguiça ou negligência, deixamos de fazer melhor. Não temos nenhuma obrigação de fazer nada segundo padrões estabelecidos, mas fomos dotados de um senso de responsabilidade, perante nós próprios e perante a vida, e se ficarmos atentos ouvir a voz desse senso. Que é a voz da nossa consciência. Ela é sempre a nossa melhor conselheira, que jamais se engana e jamais nos engana.

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