Vamos continuar brincando de eleição
José Fernando da Silva
Desde os tempos em que os gregos se reuniam em assembléia para discutir política, o termo democracia guarda em si um pressuposto básico: igualdade de condições. No momento em que o Congresso aprovou a possibilidade da reeleição, com regras amplamente favoráveis aos que estão no poder, o tênue equilíbrio de nossa jovem democracia descambou vergonhosamente para o lado dos que ocupam o cargo ao qual concorrem novamente. A oposição não notou, ou não quis notar, que Fernando Henrique sempre contou com ampla maioria no Congresso e que, em última análise, ele mesmo ditava as regras deste pleito.
Política nunca foi feita para ser discutida ou feita em colégio de senhoritas. É de se admirar a candura com que nossa brava bancada de oposição aceitou as novas regras. Inês é morta, resta agora à oposição, o direito ao esperneio, denunciar o processo viciado e como criança mimada dizer que não brinca mais de eleição.
A imprensa brasileira, por inércia, comodidade, ou sem-vergonhice mesmo, sempre tendeu a privilegiar os que estão no poder. Em nossa história republicana, raros foram os veículos de comunicação que ousaram desafiar o poder. Assim foi com Getúlio Vargas e com o regime militar, mas aí tínhamos a desculpa da censura, tanto com o caudilho gaúcho como com os milicos.
Mas agora não há mais censura e a adesão vergonhosa das principais redes e agências de notícias à candidatura de Fernando Henrique é uma agressão à inteligência dos brasileiros. Não poderia ser diferente, Fernando Henrique é a certeza de lucro fácil para estes grupos de comunicação que participam da encenação das privatizações em curso. Ora, para que eles iriam abrir espaço em horário nobre para Lula ou outro candidato, encarnações do demônio da honestidade, o que não combina muito no ambiente celestial montado para torrar o patrimônio nacional e beneficiar meia-dúzia de apaniguados do Planalto?
Foi neste cenário que se aventou a possibilidade do candidato à presidência da República pelo PT, Luís Inácio Lula da Silva, abandonar a disputa. Caso isso acontecesse, as consequências seriam desastrosas para o País. A comunidade internacional veria com extrema confiança o governo brasileiro e o reflexo em nossa economia seria imediato. Sairíamos do conceito pouco confiável para o nada confiável, e a crise deixaria de ser apenas política.
A oposição fica, portanto, entre a cruz e a caldeirinha. Se ficar na disputa, vai respaldar este processo viciado. Vai colocar uma azeitona colossal na empada de Fernando Henrique. Se abandonar o pleito, vai ter que sair do campo do denuncismo e agir. E como agir numa situação destas? Primeiro, demonstrando que o governo Fernando Henrique Cardoso não é democrático e depois radicalizando suas ações contra este governo. Ou seja, para assumir esta posição, a de não concorrer, é preciso muito mais do que dizer que não se brinca mais de eleição, é necessário assumir todas as responsabilidades do ato. Lula aparentemente entendeu isso ao garantir que continua concorrendo. Resta agora saber se os veículos de comunicação entenderam o recado.
O povo brasileiro espera da nossa imprensa um pouco de respeito. Creio que boa parte do que conhecemos da democracia grega não existiria hoje caso os gregos conhecessem rádio, jornal e a televisão.
JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina

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