Vamos construir um país sério
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de maio de 1997
Luiz Bordenowski 
Acusando a oposição de golpismo político, o senador José Fogaça, falando em nome do PMDB, manifestou integral apoio ao presidente Fernando Henrique Cardoso, procurando, desta forma, abortar uma CPI para apurar a compra de votos durante a tramitação da emenda da reeleição, que segundo o mesmo tem o respaldo popular, a despeito da ausência de um plebiscito.
Embora José Fogaça negue a vergonhosa barganha, que poderá envolver o próprio ministro Sérgio Motta, a assertiva do parlamentar colide com mais um acordo, desta feita o que levou o senador Íris Rezende para o Ministério da Justiça e o deputado Eliseu Padilha para a Pasta dos Transportes.
Em nome da transparência administrativa, o presidente Fernando Henrique Cardoso deveria permitir a apuração dos fatos, visando manter a credibilidade, sem contar com o acerto do PMDB, tradicional partido de oposição que perdeu suas características fundamentais, certamente sepultadas junco com a antiga sigla do MDB, cujas lideranças e militantes lutaram pela abertura política e a realização de eleições livres.
Todos os escândalos desta administração têm girado em torno das reformas constitucionais, que se arrastam há mais de dois anos enquanto o país está parado, enfrentando a recessão, o desemprego e a quebradeira do empresariado. Não existe família no país que não tenha ao menos um desempregado, grandes empresas estão fechando as portas, os juros estão altos e os preços aumentando em diversos setores, incluindo as tarifas públicas.
Na verdade nada está sendo feito de importante pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, que nestes dois anos de administração se limitou a investir contra a classe trabalhadora, especialmente os servidores públicos, que na sua grande maioria, no caso mais de 70%, não ganham mais do que cinco salários mínimos. Da mesma forma, elevar a idade da aposentadoria, também na iniciativa privada além da expectativa de vida do brasileiro, não resolverá os problemas do país.
Repete-se neste momento a retórica de Fernando Collor de Mello contra os marajás do serviço público, presidente que tropeçou no confisco da poupança da classe c e na corrupção de membros do Congresso Nacional. Da mesma forma que Collor não resolveu a questão dos privilégios, que ainda continuam, especialmente entre os parlamentares, FHC nem mesmo é o pai do Plano Real, criado pelo presidente Itamar Franco, de quem era apenas ministro.
O prestígio de Fernando Henrique Cardoso fica cada dia mais abalado, situação comprovada pelos institutos de pesquisa, enquanto o mesmo, de forma intransigente, se restringe a debater minúcias como a paridade salarial dos funcionários públicos ativos e inativos, estabilidade e aposentadoria, sempre alertando quanto a eventual falência da previdência social, que na verdade vem sendo vítima da rapinagem de pessoas, a exemplo do Juiz Nestor do Nascimento e do advogado Wilson Scórcia da Veiga, responsáveis pelo desvio de milhões de reais.
Esta visão míope da situação do país é perigosa e exige uma mudança de posição, pois a principal reforma, no caso a tributária, foi relegada a segundo plano, o que contribui para o déficit público e o desequilíbrio da balança comercial. Temos, ainda, o problema das dívidas externa e interna atrelado aos mesmos fatores, que pouco têm em comum com a questão do funcionalismo.
O Brasil, país potencialmente rico, tem que crescer, o que depende de uma política econômica séria que estimule o setor produtivo e gere empregos. Hoje a indústria nacional está sufocada, depende de empréstimos com juros altos, sofre arrocho fiscal e não pode concorrer com os produtos importados que nos países de origem recebem significativos subsídios. É o caso da Cacique, tradicional indústria, que não podendo atuar no exterior, deu férias coletivas aos empregados.
Centenas de empresas já faliram nestes últimos dois anos e milhares de trabalhadores estão desempregados, o que não pode ser atribuído somente à globalização da economia. Na verdade, a recessão está presente e se acentua a olhos vistos, enquanto a atenção da população é chamada para outras situações irrevelantes.
O país necessita crescer, os empresários desejam produzir e vender e os trabalhadores querem empregos. Se isso não for feito, o Plano Real, sustentado com a recessão, com certeza fracassará, fazendo retornar a inflação.
Todos os brasileiros clamam por transparência e seriedade e repudiam as barganhas e a demagogia que não tornam este governo diferente daquele recentemente encerrado pela vontade popular, insurgida contra atos de igual gravidade, diariamente relatados na imprensa.
Queremos ver respeitados os princípios basilares da Constituição, especialmente os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. Da mesma forma, pactuamos, trabalhadores e empresários, com a edificação de uma sociedade justa, além da erradicação da pobreza. Nesse rumo, deixaremos para trás a desigualdade, o mais perigoso dos fatores, pois os excluídos, segundo a História nos tem ensinado, foram os que destruiram os maiores impérios.


