Vamos comer quilowatts
Walmor Macarini
De novo o Movimento dos Atingidos por Barragens agiliza-se contra o projeto da Copel de implantar mais usinas hidrelétricas no Paraná, agora ao longo da bacia do Rio Tibagi. Serão 7, isto por ora, porque a empresa quer outras mais, aqui em nosso território.
E tudo isto não porque o Paraná precise de mais energia elétrica – eis que consome apenas 30% do que produz – mas pela ânsia da empresa de consagrar-se como supergigante, com suas ações no topo do mercado, ademais elevando muitíssimo sua cotação quando chegar o leilão da privatização, previsto para acontecer ainda neste governo.
Produzir quilowatts no lugar de produzir alimentos é o que querem estes que não conhecem seu próprio Estado e ignoram que, aqui nestas terras riquíssimas, se entram as águas das represas sai o homem e saem as culturas agrícolas. Aniquilam, assim, o que temos de mais dadivoso e que nos foi outorgado por graça divina.
As pessoas nem gostam de lembrar, para não atrair tragédias semelhantes, mas de quem foi capaz de inundar Sete Quedas tudo de pior se pode esperar.
Com esta ameaça de alagar mais terras produtivas, a parte sensata da população – a que tem que pensar por ela e pela legião dos indiferentes e dos desconectados – vive momentos de apreensão e insegurança.
Semear inundações em áreas de agricultura e pecuária, ademais densamente povoadas, não difere nada da desertificação e da flagelação das terras.
A antropóloga Kimiye Tommasino diz que as inundações previstas afetarão 2 mil índios e 27 sítios arqueológicos, e só pelo fato de atingir reservas indígenas – não bastassem os outros males – o Congresso terá que ser ouvido.
Essas alagações cessarão a extratividade da terra não apenas por uma safra, mas através da eternidade dos anos.
E o promotor de Justiça de Guaíra, Robertson Fonseca de Azevedo, em declaração a este jornal alerta que os royalties pagos pelas usinas, aos municípios atingidos, não são compensadores como o ICMS auferido sobre a produção agrícola e afins.
Então, a que irão servir essas novas hidrelétricas? Elas são necessárias, sim, mas que sejam implantadas em regiões mais propícias deste Brasil imenso, onde os prejuízos econômicos e os danos ambientais sejam menores. Energia se puxa por linhas, e, por mais longa que seja a distância ainda sairá barato, ante o prejuízo representado pela interrupção da produção agrícola e pecuária. Não precisa o Paraná meter-se a oferecido, quando sua vocação é cultivar a terra e dela extrair os alimentos de que o Brasil precisa.
Ou quem sabe iremos comer quilowatts...
Hidrelétricas, pelas inundações que provocam, já expulsaram das terras milhares de famílias de colonos e as acantonaram na periferia das cidades, porque a mão que as afastou não as amparou, eis que é assim que age a oficialidade neste país de governantes irresponsáveis. Hidrelétricas geraram colonos sem terra. Hidrelétricas, pelo que vimos do depoimento de dois agricultores, neste jornal, fragmentaram famílias, porque pais e filhos separaram-se, irmãos e parentes dispersaram-se.
O Paraná quer criar mais problemas com sem-terra? Então que instale estas sete bestas apocalípticas! Os pósteros se lembrarão do que cometeram os governantes destes anos e os ‘‘sábios’’ da nossa megacompanhia de eletricidade, que a essa altura já estará em mãos de estranhos, muito provavelmente multinacionais. Assim como os sensatos de hoje indagam-se, perplexos, como puderam ter feito o que fizeram com Sete Quedas.
Já escrevi em artigos anteriores que será preciso fazer um projeto global, com a aprovação de todos os órgãos diretamente envolvidos e da sociedade consciente, mapeando os locais adequados no Brasil para implantação de usinas hidrelétricas, termoelétricas e termonucleares. Assim evitando o que se fez – e vamos repetir à exaustão – com Sete Quedas, com Angra dos Reis, ambos paraísos turísticos, este último constantemente ameaçado pelo risco de vazamento nuclear. Angra foi, ademais, uma obra caríssima e obsoleta já quando da instalação, e até hoje praticamente inativa. Acordo celebrado ao tempo do governo ditatorial para desovar sucata da Alemanha.
Enfim, temos que repetir, sempre, que a energia elétrica é necessária, para não pensarem, alguns, que somos a favor da volta das lamparinas e dos lampiões de gás, ou quem sabe dos archotes da Idade Média, mas hidrelétricas resultam em áreas alagadas, onde moram pessoas, onde habitam aves, bichos e peixes, onde existem matas nativas, rios e cataratas, onde se produz alimentos. Com a invasão da terra pelas águas irão embora todos os que nela habitam, com todas as consequências daí decorrentes e que nossos governantes, depois, não darão conta de administrar, porque se são tão irresponsáveis para criar problemas são na mesma medida incompetentes para gerenciá-los.
Temos que ficar atentos com o que são capazes de fazer, contra as pessoas, os homens do governo. Se facilitarmos, eles fazem!
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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