Vamos acordar Ruth Barbara Steidle Meus pais Hans e Hildegard vieram recém-casados da Alemanha em 1936. De lá tiveram que sair por motivos políticos e raciais. Meu pai era comerciante e minha mãe doutora em Medicina. Aqui no Norte do Paraná era quase tudo mata virgem. No início foi muito difícil para meus pais que não sabiam como derrubar mato e plantar, nem entendiam a língua portuguesa. Com muita coragem e trabalho, foram aprendendo como viver na terra que tinham conseguido comprar no meio do mato, distante 10 quilômetros do pequenino lugarejo que era Rolândia. Terra a que deram o nome de Fazenda Bimini. O nome Bimini eles tiraram de um poema sobre a fonte da eterna juventude. Tiveram três filhos: Eva, Ruth e Joãozinho. Em 1938, 62 anos atrás, como segunda filha do casal, nasci na fazenda. Contaram-me que quando nasci, minha mãe estava sozinha no casebre em que viviam. Meu pai que tinha ido buscar a parteira, ficara atolado num lamaçal, na picada, no meio do mato. Cresci, trabalhei e brinquei no mato que ia se transformando em roça. Meu maior orgulho era quando conseguia derrubar e trazer do mato palmito suficiente para a comida da casa. Na minha adolescência, os adultos se escandalizavam com o rock e as primeiras calças jeans, com botões em vez de zíper, que minha irmã e eu usávamos em Rolândia. Estudei enfermagem na cidade de São Paulo. Lá deixei de ser sonhadora, terminei como 1ª colocada. Quando tinha 22 anos, fui visitar parentes na Alemanha. Lá me apaixonei e casei com um alemão, Ferdinand, professor de artes plásticas. Meus dois filhos, Daniel e Manuel, nasceram na Alemanha. Depois de doze anos, voltei a Rolândia. Trabalhei como professora de artes plásticas na Escola Roland, fundada em 1968 pelo meu pai, que era conhecido por Tio João. Em Rolândia, sempre morei na Fazenda Bimini. Depois que meus pais faleceram, passei a cuidar da fazenda. Quando, faz mais de dois anos, ouvi que a cidade decidiu colocar seu lixo na zona rural, perto de onde já há mais de 60 anos minha família se estabeleceu, trabalhou e viveu, fiquei muito triste. Não só eu, mas outros em volta, que não acharam justo que o local de trabalho, produção e moradia ia ser transformado em depósito de lixo da cidade. Juntou-se um grupo de pessoas, um movimento, para defender os interesses de habitantes da região. Quando começamos a nos informar e a entender mais sobre o lixo, descobrimos que lixo não é só problema de uma minoria que se revolta em ter que aceitar que sua vida e sua propriedade sejam desvalorizadas sem ser perguntada nem indenizada. Até então, eu não sabia da existência do Lixão de Rolândia. Já tinha lido e ouvido falar de Ecologia, mas nunca me ligado muito. O ar que respirava era agradável, o lixo que produzia era colocado em fossas e sumia da vista e da consciência; água suficientemente limpa para o consumo brotava das minas da fazenda... para que me incomodar? Partindo da questão lixo comecei a entender cada vez mais como é vital o meio ambiente como um todo. O problema não é o lixo, e como nos livrar dele... Empurrar para o lado de quem não consegue se defender – queimar, enterrar, afogar ou exportar. O problema é que se não cuidarmos de todo o nosso meio ambiente, teremos um lugar sem condições de abrigar a espécie humana. No tempo de minha expectativa de vida, provavelmente, ainda vai dar para dar um jeito, mas a vida na terra continua e se nós continuarmos a usar os recursos disponíveis, sem nos preocuparmos, visando unicamente nossa satisfação imediata, como vai ser o mundo amanhã? Passei a acreditar ser importante lutar pelo amanhã, procurar reconhecer problemas ambientais, alertar e ajudar a encontrar soluções. Sou velha, mas acredito que vale a pena lutar por um mundo sustentável. Muitos ainda acham que isso de Ecologia e meio ambiente é um modismo que passa, como a onda do bambolê. Eu era uma dessas pessoas, até que problemas na porta de casa me fizeram acordar. Vamos acordar. Vamos reconhecer e enfrentar os problemas com coragem e alegria. É ilimitado o que ainda podemos aprender. - RUTH BARBARA STEIDLE é agricultora em Rolândia