‘‘Big Brother Brasil’’, da Rede Globo, insere-se numa série já conhecida de programas de tevê ditos de ‘‘diversão’’, em que vale tudo para ganhar uma ‘‘bolada’’ ou simplesmente ‘‘aparecer’’. Bem que Andy Warhol avisava que todos teriam assegurados, no futuro (já presente), seus 15 minutos de fama. Ele só não imaginava que essa exposição efêmera viria a ser, muitas vezes, disputada a tapa.
Atualmente, até mesmo aqueles considerados ‘‘do mal’’, os criminosos em geral, sequestradores e corruptos diversos, acabam virando estrelas de tevê, com direito a coletiva de imprensa e a espaçosa exposição na mídia. Está tudo mesmo do avesso ou é apenas uma questão de mau entendimento de nossa parte?
Ao que tudo indica, o ‘‘vale tudo’’ está se tornando mais um de nossos valores, aquelas convicções pessoais que orientam nosso modo de agir na vida. O ‘‘Big Brother’’ parece demonstrar essa hipótese na prática. Vistosos indivíduos aceitam expor sua privacidade - e o seu pior lado -, para ganhar dinheiro e alcançar sucesso a curtíssimo prazo. Observados minuciosamente na arena tecnológica, eles tentam resistir. Ensaiam um pouco de bom humor e de superficial camaradagem. A rede de tevê, no entanto, como um poderoso César da era moderna, insufla os ânimos e quer de seus gladiadores, no mínimo, ‘‘choro e ranger de dentes’’, para que o circo fique mais animado. ‘‘Quem mandou topar?’’, perguntamos, sentindo-nos como ‘‘voyeurs’’, sem dúvida fascinados, mas também culpados, por tão mórbida curiosidade.
Se o que nos apresentam no ‘‘Big Brother’’ é mesmo um ‘‘show da vida real’’, então devemos ficar preocupados. Será que é assim que agimos, para garantir nosso espaço pessoal e profissional no mundo? Com intriga, maledicência, banalizando relacionamentos e, literalmente, ‘‘puxando o tapete’’ dos de boa fé ou apenas distraídos? Será que é utilizando as técnicas ‘‘do mal’’ que procuramos alcançar ‘‘o bem’’? Isso está mais parecido com a lengalenga de terroristas, para quem também vale tudo, quando a proposta é impor suas idéias como verdade única.
Atualmente, com a televisão, a informatização e a globalização, para citar apenas três das ‘‘revoluções’’ pelas quais passou a humanidade em passado recente, tudo se misturou, como se tivesse sido colocado num gigantesco liquidificador. E, nessa confusão de informações, opiniões, apelos, influências etc., fica cada vez mais difícil encontrar a forma mais ética de agir em cada situação. Nesse sentido, o ‘‘Big Brother’’ pode estar funcionando como um espelho, em que nos vemos nos comportando com perigosa naturalidade no terreno movediço dos preciosos valores pessoais. Qual de nossos lados vai prevalecer, o do patife ou o do homem digno? No jogo, na competição em que vale tudo, provavelmente o do patife. E na vida real?
Que tal virarmos o espelho para o outro lado? Uma análise mais crítica em relação ao ‘‘Big Brother’’ pode se revelar muito educativa, uma vez que nos permite ver, de camarote, o que pessoas comuns fazem quando se sujeitam à manipulação e à intimidação, pela ilusão de alcançar a ‘‘cenoura de ouro’’ sedutoramente agitada à sua frente. Não estamos todos nós sujeitos a isso em nosso dia-a-dia? A salvaguarda de nossa integridade tem, como base, a consciência crítica sobre a realidade. Sem essa defesa, corremos o risco de ser facilmente engabelados pelos autoproclamados ‘‘formadores’’ de opinião. É preciso lembrar sempre que o vale tudo deles pode não valer nada, frente aos nossos próprios valores!
ANA MARGARIDA SETTI ROSA é jornalista e escritora em Londrina

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