Valei-nos, São Caetano!
Quem achava que a alegria de jogar futebol e a devoção ao gol tinham virado saudade, eis que surge o São Caetano do ABC paulista em santa ingenuidade pelos nossos pecados em liminares astutas e CPIs escorregadias. Ontem, sepultou o Grêmio e está na final da Copa João Havelange.
O time só virou fenômeno pela tradicional alienação da cobertura jornalística que teima em apostar suas fichas só no consagrado e não tem olhos realmente profissionais para o que acontece fora dos grandes centros. O São Caetano é o que é há no mínimo dois anos. Mas a mídia por força da audiência, que tem culpa nisso adora e doura pílulas dos mitos pré-fabricados. Dança nas jogadas marcadas pelo poder da grana.
O melhor dessa redenção do famoso futebol irresponsável lembremos da seleção de Telê, a Holanda de Cruiff e os Camarões de Roger Milla é que o ataque tem uma aura de irrecuperável bondade: parte para cima na busca do gol, consciente de que a celebração da torcida precisa dessa rede balançando para se sentir una, ungida, absoluta.
O São Caetano nos revela o quanto vale competir sem o peso da glória a qualquer custo. O time entra só para jogar. E ser feliz com isso. E fazer feliz quem nele acredita. Esse senso de prazer em campo não víamos há muito tempo. Estamos bem intoxicados com tanta infâmia das negociatas esportivas que têm gerado uma geração de cartolas realmente desprezíveis. As CPIs estão até levantando a pontinha do véu. Tomara seja o suficiente para devastar a bandalheira dos Teixeiras, Euricos & Cia.
O melhor da surpresa é que vai terminando essa divisa entre primeiras e segundas divisões ao mostrar o diferencial do apetite pela vitória e o esforço coletivo como base para o sucesso. O chamado gênio ou o talento individual é o que melhor joga para o time. Aquele que mais pode interpretar a expectativa geral. Manda quem for o mais dócil e receptivo. Fala que tem a melhor faculdade de ouvir. Lidera quem mais sabe o valor de conciliar e obedecer às diversas opiniões. É um novo padrão de liderança. Diferente do reizinho temperamental geralmente escravo da patota que o idolatra.
O São Caetano deve durar pouco, não me iludo chega em boa hora. Mostra que valem mais os autores, sujeitos da história, que autoridades, algozes da nossa capacidade de ser simplesmente feliz.
- TT CATALÃO é jornalista em Brasília





