O deputado Geraldo Magela (PT-DF), relator-geral do Orçamento para 2010, reservou R$ 12 bilhões para o programa Bolsa-Família, o que significa R$ 1 bilhão a mais que o valor orçado neste ano, segundo informações da Agência Estado. A pretensão do governo é estender o programa para mais 1 milhão de famílias. O projeto foi aprovado no Congresso Nacional e encaminhado para sanção presidencial.

Com esse incentivo, os índices de consumo envolvendo as classes C, D e E devem aumentar ainda mais. Segundo Virene Matesco, professora de Macroeconomia do ISAE-FGV (Instituto Superior de Administração e Economia/Fundação Getúlio Vargas) em Curitiba, o resultado é fruto de uma política pública do governo. ''E esse foi um dos itens que apresentou maior crescimento nesse último trimestre, quando saiu o dado do PIB. O consumo das famílias cresceu 2% acima do crescimento da economia, que foi de 1,3%. Isso denota que os programas voltados para incentivo do consumo têm dado resultado'', aponta.

O aumento do salário mínimo acima da inflação e o reajuste dos valores do Bolsa Família também integram essa estratégia. Como os beneficiados pelo programa somam uma grande parcela da população, é natural que o consumo também atinja índices mais altos.

Para Virene, outro fator com forte influência no consumo é o cartão de crédito, distribuído pelos bancos mesmo para quem antes não tinha acesso a essa forma de pagamento. ''Qualquer compra hoje pode ser financiada no cartão. As taxas de juros, embora no Brasil sejam muito altas, estão estáveis. Há até uma leve queda nos juros de compra do varejo'', avalia.

A economista também ressalta o encantamento dos integrantes das classes mais baixas com a possibilidade de comprar cada vez mais coisas. Com a estabilidade da moeda ficou mais fácil se programar para assumir as prestações, que têm valores mais estáveis. E as lojas participam dessa euforia estendendo o pagamento por meses a fio. ''O brasileiro não presta muita atenção nos juros que vai pagar e sim no número de prestações. Se a prestação cabe no salário, as pessoas vão comprando e isso facilitou muito a explosão de consumo'', explica Virene. Confira mais a seguir.

É diferente o perfil de consumo das várias classes sociais?
A classe mais baixa depende muito do crediário. Mesmo aquele crediário do cartão, aquele poder pagar em duas, três vezes. A classe alta depende menos do crediário. A classe C para baixo só compra itens mais caros se forem financiados. E foi esse financiamento que melhorou muito.

O que as classes baixas mais consomem?
Todos os itens estão apresentando crescimento, tanto alimentação quanto roupas, calçados e bens de consumo duráveis. Estão trocando a geladeira, o som, comprando um televisor novo. Buscam mais conforto dentro de casa.

E a compra é decidida mais pelo apelo comercial ou pela necessidade?
Depende de quem estamos falando, mas, de modo geral, a classe mais baixa está comprando pela primeira vez e está comprando itens caros. Primeiro compra porque não tem, mas há aqueles quem têm um item de qualidade inferior e compram itens melhores. Quem tinha uma máquina de lavar do modelo ''tanquinho'' muda para um modelo melhor. Hoje é possível comprar uma geladeira em 36 meses. Não é por acaso que a propaganda diz não o preço da mercadoria e sim em quantas parcelas você pode pagar.

Poderíamos dizer, já que as pessoas não prestam atenção no percentual de juros, que elas ainda não aprenderam a consumir?
Não diria que não aprenderam, eu acho que estão entusiasmadas com a possibilidade de ter acesso às coisas.

O comércio reclama muito de inadimplência. Ao mesmo tempo, existe o senso comum de que o pobre paga as contas corretamente, porque tem um nome a zelar. Qual é a verdade?
Ele paga, mas atrasa, vai empurrando. Por isso há inadimplência. Se tem meia dúzia de carnês, paga um hoje, no outro mês paga outro, vai alternando os carnês. Com esse encantamento do acesso as pessoas exageram. O Brasil é um país gastador. Nós não somos poupadores.

Falta a cultura da poupança?
No Brasil nós não temos cultura de poupança, nós temos a cultura de consumo.

Será por conta do longo período de inflação alta que tivemos, quando não adiantava colocar o dinheiro no banco?
É cultural, são valores. É a pressa do ter. Nós vivemos em uma sociedade de pressa, a felicidade está no ter e não no ser. As pessoas valem o que têm, não o que são. O consumo em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) está beirando a casa de 81%. Ou seja, 81% de tudo que é produzido no Brasil é consumido, dentro do país mesmo. O nível de consumo é muito alto.

Em outros países, de quanto é essa taxa?
Na China é de 60%. Aí junta tudo: não tem a cultura da poupança, tem a pressa do ter. A taxa de juros que ''chicoteia'' quem está endividado é a taxa de juros, que dá o prêmio para quem poupa. As pessoas não estão preocupadas. Pensam muito mais no hoje do que no futuro.

No Natal as pessoas compram exageradamente, acima das suas possibilidades. Depois vem janeiro e começam os impostos, em fevereiro tem material escolar. As pessoas estão endividadas e já começam a atrasar as prestações.

No próximo ano o consumo deve continuar em alta?
As perspectivas de 2010 são melhores ainda, a economia vai crescer mais, a previsão está entre 5% e 6%. Com isso haverá mais empregos, a tendência é o consumo continuar alto.

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