Vaidade, tudo são vaidades
Diz em Eclesiastes 1:2 "vaidade de vaidades! Tudo é vaidade". A citação Bíblica parece querer revelar uma das fraquezas mais marcantes da alma humana e que está por detrás de grande parte das nossas iniquidades. No filme "O advogado do diabo" estrelado por Al Pacino, que representa o próprio diabo, em certa altura o seu personagem exclama: "Vaidade é meu pecado favorito, dele ninguém escapa...e o século XX foi o meu século, consegui fisgar a todos por meio dele".
A própria história humana pode ser revelada a partir da busca obsessiva por superioridade em nome da vaidade. Percebe-se uma procura patológica por elementos capazes de exaltar e hierarquizar certos indivíduos, seja pela posse de bens, profissão, características físicas, raça, nacionalidade ou qualquer outro traço capaz de distinguir, selecionar e reificar certos indivíduos ou grupos em detrimento das massas.
Não se trata aqui de anular as diferenças, que são visíveis e refletem a riqueza da espécie humana, o que se questiona é usar as diferenças para inferiorizar, dominar e explorar os demais em nome de uma pseudo-superioridade de alguns, que se valem de argumentos reducionistas, como meritocracia, ideologia, cultura, ou ascendência, para se justificarem, conseguirem privilégios e se exaltarem como preferidos dos deuses.
Pessoas que não abrem seu círculo de relações e se fecham para viver no "olimpo", tornam-se preconceituosas e egocêntricas, incapazes de conviver em pé de igualdade com os demais, elegem as diferenças que lhes convêm como sinais de superioridade e fazem da disputa, da concorrência e da vitória sobre os outros, o principal propósito da vida. A vaidade instala-se exatamente aí, na obsessão por visibilidade, em que se cria uma imagem idealizada de si mesmo para transmitir aos outros, com o único objetivo de ser admirado e invejado.
Vive-se em nosso tempo um exibicionismo particularmente patológico que se expressa em sinais de ostentação sem limites, não basta ter, tem que se mostrar o que se tem ou parece ter. Valem carros de luxo, vinhos de qualidade, joias ou qualquer artigo que nem todos conseguem dispor e que por isso é cobiçado, e o pior é que se perdeu o constrangimento sobre como os bens foram adquiridos. Essa realidade pode ser atestada na corrupção endêmica que se revela em boa parte dos grupos sociais do país.
Narciso, personagem da mitologia grega, é símbolo da vaidade, é incapaz de amar outras pessoas e de forma infantilizada entende o mundo como se girasse ao seu redor. A obsessão pela estratificação social traz embutido um culto ao individualismo que se revela sob a forma de vaidade, não se suportam as semelhanças que nos unem como espécie e que são infinitamente maiores do que as diferenças, torna-se insuportável perceber o outro como próximo e qualquer traço de diferença é suficiente para inflar o ego e alimentar a vaidade. O narcisismo impede a empatia, o outro transforma-se em mero instrumento e espectador das conquistas de uma pequena elite. O indivíduo reduz o seu entorno a dois tipos de pessoas: os seus iguais e o resto, e o resto se torna desprezível. Narciso acha feio o que não é espelho.
Pode-se arriscar dizer que o culto desproporcional ao indivíduo é a característica mais marcante do século XXI e que se traduz na obsessão por símbolos de status, consumo compulsivo e comportamentos exibicionistas, impulsionados pela exposição sem limites nas redes sociais, a busca de fama a qualquer preço, em que a imagem transmitida vale mais do que a realidade. A superficialidade dá a tônica da vida, o mundo se tornou o campo das aparências, cultiva-se o parecer ser, numa representação sem fim de quem quer enganar a si mesmo, o que demonstra o vazio que vai na alma.
LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é professor da UEL (Universidade Estadual de Londrina)
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