Na política brasileira não existe espaços para heroísmos. Não existe uma luta entre bandidos e mocinhos. Estão todos de um só lado porque primeiro é preciso cuidar da sobrevivência – e, se possível, do bem-estar da família. Então não cabem heróis nessa luta do dia-a-dia.
Por isso, é bom que fique claro, Antonio Carlos Magalhães não é melhor nem pior do que ninguém. Pode até ser mais desbocado, mais grosso, mais truculento. Pode, inclusive, imaginar que tem uma força que não tem. Mas, como todos os outros, tem de fazer o serviço diário de matar para não morrer. Cuidar bem do patrimônio brasileiro que, desde de tempos imemoriais, toma do público como fosse privado sem que haja reação digna de nota.
Dessa forma, nada é mais prosaico do que discutir se existem fitas com as conversas dos procuradores com ACM ou se elas foram de fato destruídas; se os computadores do Senado que registram as votações foram manipulados na cassação de Luís Estevão; se as investigações que apuravam suposto tráfico de influência de Eduardo Jorge, o todo poderoso secretário particular da presidência, foram feitas em cima das coxas.
Essas histórias apimentadas que não devem ser comentadas na frente das crianças servem para mostrar quem tem mais cacife no momento. Só isso. Ao que se saiba não existe disposição de ninguém para enfrentar uma luta sem volta em benefício da moralidade pública. É como acontecia nas brigas entre os militares durante o período autoritário. Contavam-se os tanques, quem tivesse maioria ganhava. Sem disparar um tiro. Sem usar os canhões e os tanques.
A governabilidade está acima de tudo. Porque só assim eles podem ficar com a cabeça fora d’água. E, para que haja governabilidade, os condôminos do poder vão ter que se entender. A briga, por enquanto, é por vagas melhores na garagem.
O interessante é que o carnaval não provocou uma trégua nessa situação de crise. Os arsenais de todos os grupos estão abarrotados, com munição pesada para ser utilizada nas próximas semanas.
No dia 8 já está marcado um grande espetáculo. O confronto entre Antônio Carlos Magalhães e o presidente do seu partido, o PFL, Jorge Bornhausen. ACM acusa o colega de estar agindo de comum acordo como Palácio do Planalto para prejudicá-lo. Essa reunião do PFL pode até ser aberta à imprensa para evitar que os grupos dos dois desafetos queiram resolver no tapa as suas diferenças.
O PFL é o partido que tem mais problemas dentro dessa confusão. Precisa continuar no governo. Não tem para onde escapar. Mas tem nos seus quadros Antônio Carlos que está se revelando um incomodo para a recomposição – ele não abre mão das suas posições. O ideal seria, para o PFL, que ACM se recolhesse à Bahia e deixasse que os profissionais do partido encontrassem soluções de alto nível para que ninguém ficasse prejudicado na partilha do butim. Os pefelistas querem manter seus ministérios, seus espaços. ACM prega o desembarque do poder. Bornhausen diz que topa desde que todos entreguem os seus cargos. Aí o pessoal torce o nariz. Fazer oposição, e ainda sem cargos, é uma afronta à história da valorosa agremiação.
O PMDB que nesse movimento levou vantagem, com a eleição de Jader Barbalho para a presidência do Senado e com o fortalecimento da aliança como PSDB, que pode até acabar em uma chapa comum para a sucessão de Fernando Henrique, pretende ficar de longe, se é que pode, olhando o que vai acontecer. Mas já deu sinais de que não abre mão de seu espaço, embora até admita mudar ministros.
E o PSDB dos tucanos, o partido do presidente, não anda bem comportado. Está se sentindo importante, reivindica mais ministérios. só que aí, contornar a situação é fácil. Basta o Palácio do Planalto dar uns berros que a tucanada toda se enquadra.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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