Vaca louca ou mundo louco?
Não pude evitar de ser atingida pela indignação geral que tomou conta do País em decorrência do embargo canadense à carne brasileira. Justos são os protestos efetivados e justa a reação do presidente Fernando Henrique, porém, espantosa é a surpresa demonstrada pelo governo e pelos produtores e nem um pouco imprevisíveis são os prejuízos causados pela medida intempestiva e radical.
Se puxarmos pelo fio da história, veremos que desde o final da Idade Média, quando a balança comercial dos países começava a preocupar seus governantes então detentores do poder divino, e as guerras impediam o comércio recíproco, a criação de novos mercados além-mares se apresentou como alternativa à prática meramente exploratória intentada até então e opção de incentivo para a indústria nascente, dando origem aos rudimentos do comércio internacional.
Apesar da moderna nomenclatura inventada pelos Estados Unidos e da democracia como pano de fundo, a nossa atual globalização tem os mesmos objetivos que a concessão de independência das colônias, que com dantescos e estratégicos lances de marketing político-nacionalista, jogavam uma cortina de fumaça sobre as reais razões das decisões, que não eram outras senão ampliar o mercado de escoamento de bens produzidos nos países mais desenvolvidos.
É óbvio que atualmente tal equação se repete em todos os países, e que os menos desenvolvidos continuam a aferir uma balança desfavorável e se submetendo às regras e sanções da OMC leia-se EUA; é a lei da selva e a necessidade de sobrevivência.
Porém, numa interpretação que pode ser considerada simplista, todas as ações intentadas por países desenvolvidos visando o mercado externo em qualquer época, incluindo os embargos comerciais, passaram primeiro pela avaliação da auto-suficiência e esgotamento do mercado interno. E isso se deu também no setor agropecuário, onde as exportações são sustentadas pelo excedente do abastecimento doméstico após cuidadoso planejamento, agregado ao financiamento e subsídio da produção rural.
Adotando um modelo de distribuição de terra que, fundado em pequenas propriedades, propicia um maior controle e melhor monitoramento de um plano de longo prazo das reais necessidades, integrando as questões climático-geográficas, econômicas de importação/exportação, e políticas demográficas e culturais demandadas. Ou seja, a supressão da importação da carne brasileira não vai fazer a menor diferença nas necessidades protéicas dos canadenses.
Já no Brasil, o que está sendo feito para que a imensa base miserável da pirâmide social possa comprar sequer o leite produto animal indispensável ao crescimento saudável das nossas crianças? Ao contrário, vemos os produtores jogarem fora o leite que não alcança o preço mínimo de comercialização que pague os custos da produção, e vemos os pecuaristas mantendo o gado nos pastos enquanto se aguarda a decisão do impasse.
Até que ponto a venda dos aviões da Bombardier ou da Embraer vai influenciar na implementação de uma reforma do modelo agropecuário nacional, que transforme em cidadãos produtivos e consumidores aquela maioria miserável e faminta que hoje está nas periferias das cidades? Parece-me que pulamos uma etapa crucial do processo de desenvolvimento de tecnologia, que sem dúvida é bastante avançada no Brasil. Nós lutamos para mostrar que nossas vacas não são loucas e que temos bons aviões, só que eles não têm fome...
É fácil justificar uma visão inflexível a qualquer mudança e despejar toda a culpa do prejuízo no Canadá ou num movimento revolucionário de incentivo aos conflitos sociais, mas esse filme não é novo, e enquanto não criarmos alternativas internas ficaremos eternamente à mercê de um colapso.
Essa história me fez lembrar Cuba após a Revolução, quando Fidel Castro, de posse de uma superprodução de açúcar encontrou fechadas as portas dos EUA, seu maior comprador, como resultado de um embargo que perdura até hoje, tendo então que se resignar a uma parceria com a então comunista União Soviética e que, embora seja hoje altamente desenvolvida na área biomédica, enfrenta a atual situação de penúria de todo o seu povo.
- CLÁUDIA PROCHET é advogada em Londrina
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