Vaca louca é produto britânico
Steve Stecklow, jornalista do jornal The Wall Street Journal, de Nova York, narra-nos de forma a não deixar dúvidas, os critérios que o Reino Unido utilizou para justificar a disseminação da doença da vaca louca por todo a sua região e pelo resto do mundo, a partir de exportações de farinha de ossos e carne de carcaças contaminadas com encefalopatia ou doença da vaca louca. A espantosa denúncia é de janeiro último, mas o surgimento da doença da vaca louca já se registra em 1988 em exportações de animais vivos feitas pelos próprios ingleses. Foram eles que criaram a vaca louca.
Não obstante a exportação desta matéria-prima, os britânicos exportaram também bovinos vivos para todos os continentes, sem a preocupação do controle sanitário destes plantéis. Pasmem: tudo isto se deu após os britânicos já terem conhecimento que a propagação da doença dava-se pelo consumo de farinha de carne, e que os bovinos portadores poderiam estar com a doença incubada e sua manifestação aparecer anos depois. Bastaria uma única grama de farinha contaminada, para transmitir a moléstia ao animal! Eles sabiam disso.
Quando a discussão do assunto se tornou pública, o ministro da Agricultura da França, Jean Glavany, assim se pronunciou a um jornal espanhol: São os nossos amigos e sócios na Comunidade Econômica Européia, os ingleses, que estão exportando este mal. A Associação Inglesa de Veterinários questionou as autoridades sanitárias inglesas moralmente, na pessoa do Dr. Keiter Meldrum, chefe do Serviço Veterinário governamental. E ele assim respondeu: É nosso entendimento que os países importadores devem determinar suas próprias exigências de provas sanitárias e rotulagem do produto. Nós temos informado os meios científicos por intermédio de publicações especializadas que parte de nossos rebanhos pode estar contaminada pela BSE, portanto, não nos consideramos moralmente afetados.
Its a trade. É um comércio. Alguns especialistas em saúde pública já vinham advertindo que a doença do gado, formalmente conhecida como encefalopatia espongiforme bovina (BSE), já poderia começar a aparecer bem além da Europa. Exportações britânicas mostram que a farinha potencialmente contaminada foi transportada para dentro e fora da Europa, atingindo países como Sri Lanka, Tailândia, Taiwan, países da Europa Oriental, África.
Nestes países que importaram estas farinhas tem que haver alguma contaminação, diz a Dra. Maura Ricketts, médica-chefe da Organização Mundial de Saúde (OMS) em Gênova (Itália). Quando questionada eticamente, uma grande exportadora londrina destas farinhas respondeu através de seu diretor, Robert Peck: Nós não encostamos um revólver na cabeça dos compradores para que assinem os pedidos. Negócio é negócio.
Entre 1988 e 1996 a Grã-Bretanha exportou 3,2 milhões de bovinos vivos para 36 países, alcançando todos os continentes. Os britânicos acreditavam que os animais eram sadios, mas ao passar dos anos constatou-se a doença da vaca louca em alguns exemplares. Isto ocorreu nas Ilhas Falkland, Canadá, Oman e outros países da Europa. Recentemente, o Kuwait denunciou a contaminação de uma vaca leiteira de 3 anos importada da Europa, mas não revelou de qual país. Mas, para nós, brasileiros, a impressão que fica é que ética e moral são conceitos pouco utilizados pelos ingleses, quando o negócio é dinheiro.
O retrato deste descalabro já vem de longe. O escritor irlandês Oscar Wilde (que viveu na Inglaterra no século retrasado, e que era um frasista agudo e temido) define os ingleses em uma expressão: Em Londres há muita névoa e poucas pessoas sérias. Quanto a saber se a névoa produz pessoas sérias ou se as pessoas sérias produzem névoa, é algo sobre o que não tenho a menor idéia. Já o industrial brasileiro Antonio Ermirio de Moraes, descreve: O jogo do comércio internacional não é para amadores, onde as caneladas são frequentes, e recomenda dormir de olhos abertos.
A grande verdade é que a Europa tem um grande problema com a sua vaca louca. O jornal O Estado de S.Paulo, na edição de 8 de janeiro último, traz-nos o artigo Onde colocar o lixo da vaca louca. Entre os destaques do texto estão: A Grã-Bretanha tem depositado em armazéns 450.500 toneladas de farinha de carne contaminada com BSE, aguardando sua vez para ser incineradas. Deverão ser incineradas 3 milhões de toneladas no fim de três anos. Já foram abatidos 4,75 milhões de vacas e bois mais velhos, que ofereciam algum tipo de risco. Toda semana são abatidos de 20 mil a 30 mil cabeças de gado, das quais é feita farinha de carne. A Grã-Bretanha já consumiu US$ 4 bilhões no combate a doença, e esse valor pode ser pequeno, diante do que está por vir do resto da Europa. A União Européia declarou que os animais mais velhos têm que ser todos abatidos. Famílias têm assistido entes queridos sucumbir a uma doença incurável. O consumo de carne vermelha na Europa caiu 50% nos últimos meses.
O quadro é esse, e é grave. O Brasil precisa ter habilidade e competência para tratar da situação, começando pela ação indispensável de suas instituições governamentais que dão cumprimento aos acordos entre as nações, quer sejam os sanitários e legais. As representações associativas, apoiadas pelos organismos governamentais de apoio às exportações, também têm responsabilidade.
As nossas autoridades precisam desenvolver campanhas esclarecedoras das condições do hábitat dos nossos bovinos que come capim e não farinha de seus semelhantes qualidade e sistema extensivo de nossas pastagens, sanidade de nossos rebanhos e origem dos plantéis, do lado industrial, a modernidade de processos e o comprometimento com a qualidade.
- PAULO FERREIRA MUNIZ é industrial em Londrina e presidente da Associação dos Abatedouros e Produtores Avícolas do Paraná (Avipar)





