Utopia regressiva
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de março de 1997
Ruy Fabiano 
O presidente Fernando Henrique cunhou a expressão utopia regressiva para designar a crise existencial em que a oposição está metida desde o início de seu governo. A rigor, desde bem antes.
O colapso dos regimes socialistas, no final da década passada, esvaziou o discurso clássico da esquerda e, na sequência, consolidou a hegemonia conservadora no país.
Subitamente, a sinalização política inverteu-se: a esquerda passou a ser considerada reacionária e os neoliberais, progressistas. Quem aderiu (ou se reciclou, como preferem alguns), se deu bem. É o caso do próprio Fernando Henrique. Pouco a pouco, assimilou os fundamentos da era da globalização e visualizou as etapas de transformação em curso, via reformas na Constituição.
Quem não aderiu - caso da oposição de esquerda - está à deriva. O termo utopia regressiva, como é óbvio, desagrada a oposição, que, de público, o repele. Intramuros, no entanto, suas principais lideranças admitem que a síntese é verdadeira.
Fernando Henrique tornou-se imbatível e incontrastável menos por seus méritos (que são inegáveis) e mais pela ausência de assunto e de perspectiva de seus adversários. Está em curso, entre as lideranças oposicionistas mais expressivas, uma tese cuja eficácia só poderá ser aferida no próximo governo: eleger para a Câmara os nomes mais combativos e carismáticos das oposições.
Gente como Lula, Brizola, Miguel Arraes, Itamar Franco, cuja eleição para deputado é garantida, usariam seu prestígio e poder de articulação no âmbito do Legislativo, oferecendo ao futuro governo a resistência que, neste momento, inexiste.
A tese parte do pressuposto (ato falho inevitável) de que Fernando Henrique já está reeleito. Em recente entrevista a um jornal paulista, Leonel Brizola traçou o perfil do candidato ideal para enfrentar Fernando Henrique em 98: alguém que viabilize uma aliança de centro-esquerda com as forças conservadoras. Esse alguém, diz ele, poderia ser, inclusive, um conservador.
Sem perceber, Brizola, ao imaginar um adversário ideal para Fernando Henrique, acabou desenhando o perfil do próprio Fernando Henrique, cuja proeza foi exatamente amarrar uma aliança sólida do centro-esquerda para a direita, conquistando a confiança da classe média.
Lula reconhece que Fernando Henrique conseguiu não apenas sólida maioria no Congresso, mas sustentação política efetiva na sociedade. Há pouco mais de uma semana, a oposição - PT, PDT e PC do B - conseguiu formar um bloco parlamentar na Câmara, cuja operacionalidade ainda não foi testada. Admitem, porém, suas lideranças que esse bloco está longe de possuir maiores respaldos na sociedade. No máximo, conseguirá complicar um pouco mais o rito das reformas.
- RUY FABIANO é jornalista em Brasília


