Em 20 anos, a vida mudou para os moradores das ilhas do rio Paraná - no município de Porto Rico (95 km a noroeste de Paranavaí). A construção de usinas hidrelétricas alterou o sistema de cheia e arrasou a reprodução dos peixes. Além disso, a partir de 2002, a fiscalização ambiental passou a cobrar o cumprimento do Código Ambiental - que é de 1965 - e proibiu o plantio nas pequenas propriedades.

Nesta entrevista, o presidente da Associação dos Pescadores e Lavradores de Porto Rico, Otávio Pereira Cândido, conta que as dificuldades já levaram ao êxodo de 90% das 500 famílias que habitavam a Ilha Mutum - a maior da região.

Como era o rio Paraná antes das barragens?
Havia fartura de peixe. Todos os anos tinha cheia. As chuvas começavam em outubro, enchendo afluentes e lagoas do varjão (área de várzea). Os peixes ficavam alvoroçados e iam nesses locais para desovar. No ano seguinte, era a mesma coisa. Daí, os peixes que tinham crescido nas lagoas voltavam para o rio, e os adultos faziam nova desova no varjão. Além disso, naquela época a água corria com força e velocidade, a correnteza era forte.

E depois das usinas?
A região ficou destruída. Como as barragens seguram a água, para recompor os reservatórios, ficamos sem as cheias. Depois que concluíram a Usina de Porto Primavera (Cesp), ficamos quase 10 anos sem piracema e, hoje, a pesca praticamente acabou. A correnteza também diminuiu muito. A única coisa que aumentou foi a erosão: o sobe e desce da água (em razão da abertura e fechamento das comportas) encharca a barranca e derruba as margens. Em alguns locais, a margem já caiu centenas de metros.

Em 2006 e 2007, o volume de chuva ultrapassou a capacidade dos reservatórios e as cheias voltaram...
Foram duas cheias descontroladas, a água veio de uma vez. Por que não soltam aos poucos? Aqui, alagou tudo e ninguém ficou sabendo de nada. O aviso que nós temos é quando chegamos na beira do rio e vemos: o rio está enchendo. Ouvi dizer que (as usinas) colocam na internet quando vão abrir os vertedouros, mas você acha que algum ilhéu tem computador? Se até radinho de pilha está difícil! Apesar de a gente estar pertinho da usina, nunca levaram luz elétrica para as ilhas.

Outra questão que ajudou a desalojar os ilhéus foi a proibição das lavouras. Não se pode plantar nem para comer?
A ordem do IAP e da juíza de Loanda é preservar a área e não plantar, nem para comer. Só que aqueles moradores estavam lá há mais de 40 anos e ninguém foi indenizado. Têm moradores nas ilhas que compram milho na cidade para dar às galinhas. Alguns ilhéus que continuam lá não podem plantar, mas pelo menos fogem do aluguel, da luz, da água e outras despesas que têm na cidade.

Qual a resposta das autoridades à reclamação da Associação?
Fui ao procurador da República e à deputada federal Selma Schons (PT), da Comissão de Pesca da Câmara dos Deputados, para garantir nosso direito de pescar e plantar uma rocinha de subsistência, mas até o presente momento não tive resposta. Só que a Justiça não faz nada com os turistas, que constróem suas casas em área de preservação ambiental. Nunca vi tirarem um turista, acho que a lei deles é diferente da nossa.

Qual seu recado para os moradores do rio Tibagi - onde deve ser construída mais uma usina hidrelétrica?
Antes de construir a barragem, entrem com recurso para receber seus direitos, procurem um lugar e se mudem, porque aquilo tudo vai acabar. Digo isso porque não tem solução. Impedir a construção é difícil. A equipe do governo é muito grande e tem condições de fazer o que quer.

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